quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

CRÔNICA DE UM PEREGRINO

Ó Pai, confesso que com o passar dos anos, inelutavelmente, não conseguimos evitar mudanças de paradigmas em nossa maneira de ver o mundo à nossa volta. A maneira como encaramos determinadas verdades da Sua Palavra também revemos, em alguns momentos, sem que necessariamente abramos mão dos fundamentos básicos do Cristianismo. Afinal, a Tua Verdade não deixa de ser um conjunto de verdades.
Confesso à Ti, Senhor, que não tem sido fácil ser Igreja também, na mesma medida em que não consigo ser outra coisa, que não Igreja. Bem, mas Teu Filho, meu Salvador, já havia dito que no mundo "tereis aflição". Ajuda-me a lidar com esta realidade. Fazer uma oração como esta pode ser uma verdadeira heresia para muitos cristãos, mas não consigo deixar de expressar, especialmente a Ti, o que realmente penso, sinto, transpiro... Este sou eu, e isto é característico do meu temperamento: expor, expelir, revelar, justamente por talvez pensar demais e refletir demais.
Minha mente continua voando em seu voo livre, indomável. Ouso sonhar com uma Igreja ideal, ainda que eu mesmo não seja ideal. Bem, este fato por si só já explica porque a Igreja não é ideal, mas sim real: ela convive com pessoas reais como eu. E por isto mesmo eu preciso ser paciente, tolerante, ser capaz de amar o próximo como ele é, ainda que não os seus erros. E se é assim, então por que razão exigimos que a Igreja seja cheia de pessoas ideais quando elas são reais? Sonhamos com o casamento perfeito, com amizades perfeitas, com uma postura moral perfeita, com uma liderança perfeita, quando simplesmente parecemos esquecer que para isto seriam necessários homens e mulheres perfeitos e perfeitas. E isto, nós, definitivamente, não somos. De algum modo, Senhor, as pessoas parecem simplesmente ignorar esta realidade.
Senhor, os dualismos que alistarei para Ti, a seguir, tem afligido meu coração pecador; será que não precisamos, nós, rever nosso cristianismo? Estamos mesmo agradando ao Senhor?
Somos hábeis em defender a ortodoxia, mas tardios em demonstrar amor na concretude da vida...
Nossa lança apologética está sempre afiada; para a segunda milha, estamos sempre cansados...
Vejo tanta gente, Senhor, lutando por posição ministerial, e tão poucas pessoas se predispondo a servir...
Senhor, tantos pastores ordenados, poucos realmente vocacionados...
Vejo Seus dízimos e ofertas serem gastos mais com estruturas e eventos do que com pessoas...
O talento tem sido colocado acima da própria pessoa, Senhor. Veja, que coisa!
Medimos o êxito das pessoas pelo seu bolso, pela sua capacidade empreendedora. Só é vencedor quem comprou seu AP, seu carro zero, ou usa aquele terno daquela marca... como é mesmo?
Meu Pai! Eu fico chocado ao ver como pessoas que não representam nenhuma possibilidade são simplesmente "escanteadas". Engraçado que para Jesus, a maior oferta veio de quem menos se esperava: a viúva pobre. Alguém que hoje, com certeza, não chamaria nossa atenção na fila para o ofertório.
Ah, Senhor! Eu admito: me incomoda esta nossa tétrica capacidade de lançar pessoas no Inferno, quando aquele Homem tão cansado, tão maltratado, tão ferido, foi capaz de oferecer, na morte, vida ao mais indesejado dos homens: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso". Que incoerência de nossa parte...
Defendemos a pureza da Igreja na mesma medida em que lançamos fora os impuros... Mas não foi o mais puro dos homens que acolheu publicanos, adúlteras, ladrões, pecadores... eu?
Defendemos o casamento a qualquer preço, mas nos divorciamos dos divorciados e não os queremos entre nós. Todavia, não é o homem mais que uma instituição?
Confundimos o tempo todo amor à pessoa com amor a seus erros. Parece que não conseguimos amar quem não atende nossos parâmetros. E assim vamos vivendo...
Ah, Senhor, eu confesso: sinto-me, por vezes, absurdamente estranho entre os crentes, e noutras vezes, absurdamente um deles! 
O que farei, Senhor? Esperarei aceitação? Rejeição? Os dois? Talvez expectar assim só me deixe mais triste. Ajuda-me, mais do que isto, a seguir o exemplo do Mestre Amado, que amou sem ser amado, que deu sem nada receber em troca, que olhou para ângulos há muito rejeitados e que a muitos, como disse o projeta, justificou.

Almejo ser simples, almejo ser quem sou, almejo ser melhor do que agora, almejo ser acessível às pessoas, almejo ser uma simples criatura, almejo ser como Ele! Me dê graça para desejar menos status, mais liberdade, afinal, manter posições nos adoecem. Me dê graça para olhar o que precisa ser visto, ainda que a maioria não o queira ver. Me dê graça para continuar sensível numa era em que as pessoas só conseguem olhar para seus próprios umbigos, inclusive na Igreja. Enfim, ajuda-nos a ser como Ele.
Roney Cozzer

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

PADRÃO PIETISTA?

Lembro-me de ter tentado dialogar com um irmão, tempos atrás, sobre a condição da Igreja na atualidade. Ele, várias vezes quando me escrevia, citava homens como Edwards, Owen e outros. Insistia que a Igreja devia seguir nas suas pisadas. Concordei no sentido de que eles continuam sim sendo inspirações para nós, hoje, como homens de Deus que foram e que muito contribuíram para a Soteriologia, Eclesiologia, para a pregação, para a ação social, dentre outras áreas. Mas discordo daqueles que insistem em que de alguma forma deveríamos transpor seu estilo para nossos dias. Penso que são épocas diferentes, substancialmente diferentes! Eles, lá atrás, naturalmente refletiram também as marcas de seu tempo, como nós fazemos hoje. Veja o que diz Robson Moura Marinho em seu excelente livro "A arte de pregar": "... o conteúdo da adoração e da mensagem é bíblico, e, portanto, não deve mudar. Mas será que se pode dizer o mesmo do formato? Será que um formato de pregação que foi consagrado como uma bênção poderosa na vida de uma geração deve por isso permanecer inalterado para todas as gerações posteriores?" (MARINHO, Robson Moura. A arte de pregar: como alcançar o ouvinte pós-moderno. 2ª ed. rev. ampl. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 41). Certamente, cada época pode presenciar formas contextualizadas de compartilhar a mensagem do evangelho, sem descaracterizar esta mesma mensagem. Adaptar é preciso, corromper jamais!

Em Cristo,
Roney Cozzer

terça-feira, 14 de novembro de 2017

CONVIVÊNCIA ECLESIAL E FORMAÇÃO TEOLÓGICA?

Trecho de um novo livro saindo...

Ainda perdura no seio evangélico, especialmente nas igrejas de matriz pentecostal, uma forte resistência ao estudo acadêmico teológico. Já se tornou até mesmo um chavão aquela frase: "Teologia esfria o crente". E fato é que é até compreensível, sob certa medida, essa reserva em relação ao estudo teológico, visto que muitos há que, infelizmente, após ingressarem em seminários e faculdades teológicas, acabam deixando suas atividades na igreja onde servem, quando não abandonam a própria igreja mesmo!
Ninguém pode negar que todos estamos sujeitos a passar por intensos conflitos internos durante os estudos teológicos, seja em seminários, seja em faculdades, e em qualquer nível. E isso acontece com muitos, em diferentes denominações evangélicas. O fervor espiritual, o zelo pela evangelização, a dedicação à um ministério específico no ambiente eclesial dão lugar à frieza, ao senso crítico exagerado, que vê problema em tudo e em todos (especialmente no pastor!) e até mesmo ao abandono da fé, nalguns casos. O que acontece com essas pessoas para uma mudança tão radical? Alguns responderão que se um cristão abandona a fé no seminário ou faculdade de teologia é porque nunca a tiveram. Nossa discordância desta conclusão é estrutural! A fé cristã é pensada; é racional. Ela é coerente com fatos e pensada em harmonia com os elementos da vida. Quando as bases intelectuais da fé são "abaladas", naturalmente essa mesma fé pode ser abandonada. Em que pese ainda o fato de que a própria Bíblia menciona a apostasia, e apostatar é abandonar a fé (Hb 6).
Vale a pena registrar aqui o depoimento do Pastor Augustus Nicodemus sobre sua própria experiência com esse quase abandono da fé.

Após minha conversão em 1977, depois de uma vida desregrada e dissoluta, dediquei-me à pregação do Evangelho e a plantar igrejas. Larguei meu curso de Desenho Industrial na Universidade Federal de Pernambuco e fui trabalhar como obreiro no litoral de Olinda, pregando a uma comunidade de pescadores, depois no interior de Pernambuco entre plantadores de cana e finalmente entre viciados em droga em Recife. Todos me aconselhavam a fazer o curso de seminário e a me tornar pastor. Eu resistia, pois tinha receio de que quatro anos em um seminário iriam esfriar o meu ânimo, meu zelo, minha paixão pelas almas perdidas. Eu conhecia vários seminaristas e não tinha a menor intenção de me tornar como eles. Finalmente cedi. Entrei no seminário aos 24 anos de idade, provavelmente como um dos mais relutantes candidatos ao ministério que passara por aquelas portas. Tive professores muito abençoados que me ensinaram teologia, Bíblia, história, aconselhamento. Eram todos, sem exceção, homens de Deus, comprometidos com a infalibilidade das Escrituras e com a teologia reformada. 
Tenho que confessar, porém, que nesse período, esfriei bastante. Perdi em parte aquele zelo evangelístico, a prática de dedicar várias horas diárias para ler a Bíblia e orar. O contato com a história da Igreja, a história das doutrinas, as controvérsias, afora a carga tremenda de leituras e trabalhos a serem feitos, tudo isso teve impacto na minha vida devocional. Pela graça de Deus, durante esse período me mantive ligado ao trabalho evangelístico, à pregação. Mantive-me em comunhão com outros colegas que também amavam o Senhor e juntos orávamos, discutíamos, compartilhávamos nossas angústias, alegrias, dificuldades e planos futuros. Saí do seminário arranhado.[1]


Diversos fatores devem ser analisados no que tange à esta questão. Um desses fatores é que o problema não reside, necessariamente, na Teologia em si, ou mesmo na criticidade gerada pelo conhecimento adquirido. Com efeito, após passar anos de nossa vida lendo, pesquisando e convivendo com pessoas de outros níveis intelectuais e vivências diferentes das nossas, já não conseguimos mais encarar as coisas da mesma forma. E isto faz parte do nosso processo de amadurecimento pessoal e teológico. Mas o que ocorre muitas vezes é a incapacidade dessas pessoas de conviverem com o outro. Fala-se tanto em alteridade na academia, mas na prática, muitos mostram-se infrutíferos neste quesito. É válido dizer ainda que, em grande medida, trata-se na verdade de um problema de caráter mesmo! A arrogância encontra seus "suportes" (para não dizer pretextos) e o conhecimento teológico adquirido pode ser um desses. O conhecimento teológico pode e deve ser posto a serviço da Igreja, do Reino de Deus. Minha criticidade pode ser usada não apenas para identificar problemas, mas propor saídas e revitalizar o antigo. Possuir conhecimento acadêmico e ser incapaz de conviver não é sinal de sabedoria; é sinal de intolerância e falta de conversão em muitos casos. Que o Senhor nos ajude! Naturalmente não estamos - em hipótese alguma - afirmando que este seja um quadro geral. Há estudantes sinceros que não conseguem conciliar de fato as críticas que ouvem de professores de Teologia com a realidade que encontram em suas próprias igrejas. E não ignoramos ainda o fato de que pertencer à uma igreja evangélica hoje, já não é mais uma tarefa tão fácil assim. Todavia, não é abandonando nossa congregação que os problemas serão resolvidos; é ficando e lutando pela vida da Igreja. É insistindo com pessoas. É avançando com amor a Deus e ao próximo.


[1] NICODEMUS, Augustus Lopes. Por que seminaristas costumam perder a fé durante os estudos teológicos? Blog O tempora, o mores. Disponível em: <tempora-mores.blogspot.com.br/2012/02/por-que-seminaristas-costumam-perder-fe.html> Acesso em 14 nov. 2017.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ORDENAÇÃO AO PASTORADO?

Recentemente ouvi um pastor amigo contar um caso interessante, de uma cantora evangélica que foi ordenada ao pastorado. A resposta que ela deu quando perguntada sobre sua consagração a pastora, considerei inusitada, mas sua fala reflete uma grande parcela das pessoas hoje que são levadas ao pastorado, ou melhor, à ordenação. Ela teria dito que o fato de agora ser pastora estava lhe permitindo ter acesso a lugares que antes ela não podia ter! Perceba como as pessoas hoje almejam uma ordenação ao pastorado não pelo senso de serviço ao Reino de Deus, com vistas a cuidar de pessoas de fato, mas por motivações que giram mais em torno de seus próprios interesses. Particularmente, considero uma verdadeira crise na Igreja Brasileira o fato de pregadores itinerantes e cantores que não pastoreiam, não tem igreja para pastorear e que não atuam nem como pastores auxiliares, serem ordenados ao pastorado mais por questões de status e "abertura" do que pelo sentido exato do que é ser pastor. Como diziam os pastores antigos, pastores de verdade, "pastor tem cheiro de ovelha", e tem cheiro de ovelha por conviver com elas, por se interessar por elas, por gastar e se deixar gastar por suas almas. Quando convidado à ordenação pastoral, eu rejeitei por entender que não era ainda o momento, que minhas prioridades naquela fase de minha vida não me permitiriam estar à frente de uma igreja e, acima de tudo, por eu não querer ser pastor só no título, mas na função!
Em Cristo,