terça-feira, 5 de junho de 2012

ARTIGO: HERMENÊUTICA, A ARTE DA INTERPRETAÇÃO BÍBLICA

Este artigo é parte da nossa próxima apostila do 
curso básico de teologia: Hermenêutica. 

AS DIFICULDADES BÍBLICAS
            A Bíblia é um livro escrito dentro de limites culturais, épicos e circunstanciais e por isso mesmo é que existem muitas dificuldades na leitura e interpretação do texto bíblico. A Bíblia foi escrita por homens que viveram em contextos sociais e culturais bem distantes e distintos do nosso, daí ser perfeitamente natural que o leitor contemporâneo da Bíblia encontre dificuldades na interpretação da mensagem bíblica. É fundamental que o hermeneuta tenha em mente que as dificuldades são sempre do lado humano, não do lado divino. Muitas vezes, na leitura da Bíblia, deparamo-nos com textos aparentemente discrepantes, incoerentes e algumas vezes, até espantosos. Mas quando se faz uma análise mais profunda, mais pormenorizada, logo se constata que a Bíblia não contém erros de espécie alguma. Ela é perfeita e ... é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.16,17). Há uma frase marcante do já muito conhecido teólogo africano, Agostinho, sobre a questão da inerrância bíblica que devemos considerar aqui: “Se ficamos perplexos diante de qualquer aparente contradição nas Escrituras, não é permitido dizer ‘o autor deste livro está errado’; mas sim o manuscrito pode ser falho, a tradução pode estar errada ou nós não entendemos”.
            Passamos a listar algumas orientações importantes que o leitor da Bíblia deve sempre considerar em seu trabalho de interpretação das Escrituras. São princípios fundamentais que muitos que criticam a Bíblia simplesmente ignoram ou desconhecem totalmente, por isso acusam a Bíblia de conter erros quando na verdade são eles mesmos que estão errados em suas próprias acusações contra a Palavra de Deus.
           
Vejamos então:

1)    Ao ler e estudar determinado texto das Escrituras, considere sempre o contexto. A Lei do Contexto é fundamental e é uma das leis de interpretação bíblica mais aceita universalmente entre os estudiosos da Bíblia. O contexto é aquilo que vem antes e depois do texto que se está analisando. Pode estar num versículo, no mesmo capítulo, no mesmo livro ou até em outro livro. O grande erro da maioria das seitas ocorre justamente aqui: ignoram o contexto de determinados textos bíblicos e os usam totalmente desconexos de seus contextos, gerando assim ensinos contraditórios e até absurdos! Tudo por ignorar o contexto bíblico.

2)    Ao se deparar com textos aparentemente discrepantes, não pense logo que é erro, mas antes, faça uma análise mais profunda do assunto. Cuidado com os preconceitos (i.e., pré-conceitos) na leitura da Bíblia.

3)    Ao ler e estudar a Bíblia faça sempre de coração aberto, permitindo que o texto fale por si mesmo e não o contrário, que você fale pelo texto, forçando assim uma interpretação incoerente com o que está no texto bíblico.

4)    Ao ler e estudar a Bíblia nunca pense que você encontrará todas as explicações que possa almejar. O hermeneuta bíblico deve entender e aceitar que há coisas na Bíblia que embora citadas não foram plenamente explicadas. Exemplo? A origem do mal. A Bíblia não nos revela como foi que o mal teve origem. Este é um grande mistério que só Deus sabe. Sejamos humildes aqui e não pensemos que por isso a Bíblia esteja errada. Lembremo-nos de Deuteronômio 29.29: As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei”.

5)    Ao interpretar passagens bíblicas de difícil interpretação, faça sempre à luz das que são mais fáceis. A Bíblia oferece a nós doutrinas que estão acima da nossa razão, embora nem por isso sejam elas irracionais! Na Bíblia encontramos assuntos que são por demais complicados e que precisam ser corretamente estudados e analisados. Podemos citar como exemplo a doutrina da Trindade. Como entender plenamente que Deus é trino e único ao mesmo tempo? É realmente algo que está além da nossa compreensão limitada. Por isso é fundamental que o hermeneuta bíblico esteja sempre atendo às passagens mais claras da Bíblia sobre o assunto a fim de melhor compreendê-lo.

6)    Nunca baseia um ensino numa passagem obscura e de difícil interpretação da Bíblia. Isto pode dar espaço a ensinos errôneos a respeito das Escrituras.

EXEMPLOS DE DIFICULDADES BÍBLICAS
Passaremos a considerar agora alguns exemplos de dificuldades bíblicas para ilustrar o assunto que estamos abordando. Por exemplo, lemos assim em Romanos 12.20: “Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça”. Afinal de contas, as brasas são amontoadas sobre a cabeça de quem? Daquele que retribui beneficamente ao inimigo ou é sobre a cabeça do inimigo mesmo? É uma dificuldade que acontece no campo da tradução bíblica. RESPOSTA PARA ESTA QUESTÃO: Para entendermos o que é de fato que o apóstolo Paulo está dizendo, basta substituirmos a versão que estamos usando (ARA) por outra que traduz mais claramente o texto. A Bíblia de Jerusalém traduziu este versículo de forma mais clara: “Antes, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer, se tiver sede, dá-lhe de beber. Agindo desta forma estarás acumulando brasas sobre a cabeça dele (grifo meu). Como podemos ver, fica agora bem mais claro que as brasas são acumuladas sobre a cabeça do inimigo.
Veremos agora uma aparente contradição bíblica: Os críticos são rápidos em citar os relatos aparentemente contraditórios dos quatro livros do evangelho como uma evidência de que não são dignos de confiança em informação precisa. Mateus diz, por exemplo, que havia um anjo no túmulo de Jesus, enquanto João menciona a presença de dois anjos. Não seria isso uma contradição que derrubaria a credibilidade desses relatos? Não, mas exatamente o oposto é verdadeiro: detalhes divergentes, na verdade, fortalecem a questão de que esses são relatos feitos por testemunhas oculares. De que modo? Em primeiro lugar, vamos destacar que os relatos do anjo não são contraditórios. Mateus não diz que havia apenas um anjo na sepultura. Os críticos precisam acrescentar uma palavra ao relato de Mateus para torná-lo contraditório ao de João. Mas por que Mateus mencionou apenas um anjo, se realmente havia dois ali? Pela mesma razão que dois repórteres de diferentes jornais locais cobrindo um mesmo fato optam por incluir detalhes diferentes em suas histórias. Duas testemunhas oculares independentes raramente vêem todos os mesmos detalhes e descrevem um fato exatamente com as mesmas palavras. Elas vão registrar o mesmo fato principal (i.e., Jesus ressuscitou dos mortos), mas podem diferir nos detalhes (i.e., quantos anjos havia no túmulo). De fato, quando um juiz ouve duas testemunhas que dão testemunho idêntico, palavra por palavra, o que corretamente presume? Conclui – as testemunhas encontraram-se antecipadamente para que suas versões do fato concordassem.Desse modo, é perfeitamente racional que Mateus e João difiram – os dois estão registrando o depoimento de testemunhas oculares. Talvez Mateus tenha mencionado apenas o anjo que falou (Mt 28.5), enquanto João descreve quantos anjos Maria viu (Jo 20.12). Ou talvez um dos anjos se tenha destacado mais do que o outro. Não sabemos com certeza. Sabemos simplesmente que tais diferenças são comuns entre testemunhas oculares.

Em Cristo,
Roney Ricardo

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