quinta-feira, 6 de março de 2014

O Livro de Daniel

O LIVRO DE DANIEL

“O livro de Daniel é o desvendar de um mistério.
E, se por um lado desvenda o mistério, por outro, o
envolve em surpresa e admiração, deixando grande parte
do mistério da revelação em aberto”.

Roy E. Swim

INTRODUÇAO

            O livro de Daniel é adequadamente considerado o “Apocalipse do Antigo Testamento”, uma vez que ele foi escrito dentro do gênero apocalíptico[1] e é singular nesse sentido, em toda a extensão do Antigo Testamento. No cânon hebraico, ele está na terceira seção, chamada de Ketubim, ou “Escritos”, na divisão chamada de “Livros Históricos”, junto com mais dois livros[2]: Esdras-Neemias e Crônicas (em nossas bíblias esses livros aparecem separadamente). Embora esteja nessa colocação no cânon hebraico (e não entre os Profetas), é praticamente impossível dissociar do livro de Daniel o seu teor profético, separando-os dos outros. Certamente por isso mesmo, a LXX o coloca logo após Ezequiel. O profeta Ezequiel reconheceu Daniel como um homem de integridade ímpar, cujo caráter e sabedoria notáveis fizeram dele uma espécie de lenda entre o povo judeu (Ez 14.14, 20; 28.3). Embora Daniel não tivesse o “ofício de profeta”, à semelhança de Jeremias e Ezequiel, por exemplo, que foram chamados por Deus para esse fim, é inegável que ele recebeu “o dom”. Observemos que Jesus mesmo se refere à ele como “o profeta Daniel” (Mt 24.15).  

O Profeta

            Daniel é exemplo de fidelidade a Deus em meio a circunstâncias as mais adversas possíveis. Ele estava à 800 quilômetros de sua terra natal, de sua própria cultura, de seu próprio povo. Agora, introduzido numa cultura completamente pagã, a cultura babilônica, ele tem seu nome mudado na corte de Nabucodonosor para Beltessazar (1.7), uma homenagem ao ídolo Bel, pois o nome significa “Bel proteja sua vida”. Seu nome original, Daniel, significa em hebraico “Deus é meu Juiz”. Ele passou por um período de três anos estudando no palácio e depois foi selecionado para o serviço real. Na corte, recebeu novo nome babilônico assim como seus três amigos, Misael, Azarias e Ananias. Isso tinha por finalidade evitar o transtorno de diversos nomes estrangeiros, além de unificar uma corte tão diversificada e também de demonstrar o domínio babilônico. Ali, demonstrou límpida pureza de caráter decidindo, “... firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia...” (1.8). Essa recusa de participar do banquete real não era simples dieta, mas uma firme resolução de não romper seus votos de consagração como hebreus ao Deus de Israel. Daniel nos ensina a preciosa lição de vida de um jovem que mesmo sob circunstâncias totalmente desfavoráveis, manteve-se fiel a Deus.     
            Daniel era membro da família real. Nasceu em Jerusalém, por volta do ano 623 a.C., durante a reforma de Josias e no começo do ministério de Jeremias. Foi levado cativo para a Babilônia na primeira leva de exilados, no ano 605 a.C. O ministério de Daniel foi muito extenso. Ele era adolescente por ocasião dos eventos registrados no capítulo um de seu livro e devia já estar na faixa dos oitenta anos quando recebeu de Deus as visões dos capítulos 9 a 12.

           
A Mensagem do Livro de Daniel

            O livro de Daniel é por excelência o “Apocalipse do Antigo Testamento”. Ele é assim chamado justamente por causa do seu alto teor profético. O livro todo pode ser considerado profético, embora encontremos nele descrições históricas, como os capítulos três e seis. O livro de Daniel juntamente com o de Apocalipse pertence a uma classe da literatura judaica chamada de “literatura apocalíptica”, que é encontrada no Antigo Testamento[3]. Além de Daniel, outros profetas também utilizaram este gênero literário, tais como Isaías (caps. 24-27), Joel (cap. 2), Ezequiel (caps. 1 e 40-48) e, sobretudo, Daniel (caps. 7-12) e Zacarias (caps. 1-6). A literatura apocalíptica tem sua origem num conjunto de textos do judaísmo tardio (sec. II a.C.) e do cristianismo primitivo. Entre esses textos destacam-se o 2 Enoque, o Apocalipse de Abraão, o 2 Baruque, o 4 Esdras e as Adições em Daniel. Mas estes livros não tinham o peso da inspiração divina, tal como encontramos em Daniel e Apocalipse.
            Um fato interessante no livro de Daniel é que a sua ênfase recai mais sobre os gentios do que sobre o povo judeu, sobre Israel, diferentemente dos outros profetas. Ele menciona Israel ou Judá apenas 12 vezes. Já Ezequiel o faz 201 vezes! O livro de Oséias, 59 vezes. Interessante ainda é notar que mais da metade do livro está escrito originalmente em aramaico, que na época da escrita (séc. VII a.C.) era a língua gentia mais falada no Oriente Médio. Esta parte do livro vai de 2.4 à 7.28 e registra dois sonhos ou visões nos capítulos dois e sete que tratam dos “tempos dos gentios”, de modo que o papel dos reinos gentílicos é o assunto ou mensagem principal do livro.

Autoria e Data de Daniel

            Como acontece com o livro de Isaías, grande debate tem ocorrido em torno da autoria deste livro. Já no terceiro século depois de Cristo, um filósofo chamado Porfírio atribuiu Daniel ao segundo século a.C. acreditando que a profecia preditiva era impossível e que as “visões” na verdade eram narrativas da história recente. Jerônimo, tradutor da Vulgata Latina, planejou um comentário ao livro de Daniel a fim de refutar Porfírio. Millard chega a dizer atitudes “semelhantes à de Porfírio foram expressas ocasionalmente durante os 1.500 anos seguintes, depois difundidas amplamente durante o século XIX, e são agora padrão entre a maioria dos eruditos do Antigo Testamento”[4]. Tem sido proposto pela Alta Crítica que Daniel foi escrito no período interbíblico, precisamente quando os judeus sofriam uma terrível opressão sob Antíoco IV Epifânio. Se essa posição estiver correta, então as profecias contidas em Daniel acabam por perder sua força, quando na verdade o profeta não estaria escrevendo eventos futuros, mas contemporâneos a ele próprio. Seria uma espécie de “mentira piedosa” do verdadeiro autor a fim de encorajar os leitores a enfrentarem o sofrimento a que estavam sendo submetidos. O verdadeiro autor do livro estaria utilizando “Daniel” como pseudônimo para intitular esse livro, prática comum na literatura apocalíptica. Ele estaria usando a figura de um sábio chamado Daniel, de antigas lendas judaicas, que suportara terríveis sofrimentos e que deveria ter seu exemplo seguido. Vários outros argumentos em favor de uma data recente para a autoria de Daniel são apresentadas; vejamos, no entanto, duas refutações evidenciais a essa hipótese:

1.    Críticos mencionam que o aramaico contido em Daniel não era mesopotâmico, mas palestino, como evidência para uma data recente para a composição do livro. Todavia, temos de considerar o fato de que o aramaico era a língua franca dos impérios babilônico e persa. Reconhece-se que o fato de que metade de Daniel tenha sido escrito em aramaico encerra em si um grande mistério no que tange à reconstrução de sua história. Mas é sabido também que o aramaico presente em Daniel é, de fato, o “aramaico oficial” usado nas correspondências reais da Assíria e Babilônia (cf. 2 Re 18.26 e Dn 2.4), e não o aramaico coloquial usado na Palestina do século II a.C. Alan R. Millard comenta que “... o aramaico [de Daniel – grifo meu] pertence mais provavelmente ao período entre os séculos VI e IV a.C., embora também pudesse ser posterior. As palavras tomadas por empréstimo do persa se encaixam bem no contexto do século VI, e até os três termos musicais gregos não forçam a data para um período posterior”[5].

2.    As três palavras gregas usadas por Daniel para instrumentos musicais (harpa, cítara e o saltério – 3.5,10) são apresentadas pelos críticos como evidência de que o livro teria sido escrito no período helenista. Mas W. F. Albright, lembrado como o “deão da Arqueologia Bíblica”[6] confirma que mesmo antes de Nabucodonosor, a língua e cultura grega já havia penetrado no Oriente Médio[7]. Ainda com relação ao uso de termos persas e gregos no livro, é importante pontuar que muito antes de Daniel já existia ativo comércio com os gregos, como depreendemos de Joel 3.6. Note-se que Joel é considerado um dos mais antigos profetas de Judá, da época de Joás (cerca de 830 a.C.) ou possivelmente do reinado de Uzias, em 750 a.C.

            Não poderíamos deixar de citar também a evidência doutrinária em favor de ser Daniel, o profeta exilado em Babilônia, o autor desse livro. Em Mateus 24.15 o Senhor Jesus refere-se à Daniel como um personagem histórico real e em outras passagens vemos que Ele usou algumas expressões contidas no livro de Daniel:

Ø  “Tamanha tribulação” (Mc 13.19) de Daniel 12.1.

Ø  “Abominável da desolação” (Mc 13.14) de Daniel 11.31.

Ø  O “pisotear do santuário” (Lc 21.24) de Daniel 8.13.


Você Sabia?
            O capítulo 5 de Daniel foi alvo de ataques de críticos bíblicos que alegavam haver um erro nesse texto, pelo fato de Daniel cita Belsazar como “rei” (5.1,2). Belsazar, segundo a crítica da Bíblia, não poderia ser o rei, já que o rei de fato era Nabonido, seu pai, que reinou 556 a 539 a.C. Portanto, a narrativa bíblica estaria incorrendo em erro. Mas a Palavra de Deus tem dado provas tão concretas de ser verdadeira em suas narrativas, e isso até nos detalhes. A arqueologia demonstrou que Nabonido de fato era quem reinava, mas Belsazar seu filho, era co-regente do reino com ele – daí ser chamado rei e daí oferecer a Daniel o “terceiro lugar” (note que ele não oferece o segundo lugar! Cf. 5.16). Um documento arqueológico chamado de as Crônicas de Nabonido informa que ele havia posto as tropas militares sob o comando de Belsazar e lhe confiou o reino antes de partir para o Ocidente, onde permaneceu por dez anos. Assim, não é estranho que Belsazar fosse chamado de rei.
            Alguns também supõem que haja uma contradição no texto bíblico de Daniel 5, pelo fato de Belsazar ser ali mencionado como “filho” de Nabucodonosor (quando este na verdade era seu avô). Mas isso é facilmente explicado pelo fato de que no hebraico bíblico  não havia uma palavra equivalente para “avô”, ou “bisavô” e portanto, “filho” ali é uma forma de dizer que ele era descendente direto de Nabucodonosor.

RICARDO, Roney. Profetas Maiores: A mensagem profética da Bíblia fala hoje. 1ª ed. 2014, SENET.  



[1] Para mais detalhes sobre a literatura apocalíptica, ver Apêndice ao final deste livro.
[2] Ver tabela 3.
[3] Para mais detalhes sobre a literatura apocalíptica, ver Apêndice 2 ao final deste livro.
[4] MILLARD, Alan R. Comentário Bíblico NVI, organizado por F.F. Bruce. Ed. Vida, 1ª ed., 2008, p. 1062.
[5] MILLARD, Alan R. Comentário Bíblico NVI, organizado por F.F. Bruce. Ed. Vida, 1ª ed., 2008, p. 1.176.
[6] Albright foi considerado um dos maiores arqueólogos do século passado. Ele mesmo migrou do liberalismo teológico para o conservadorismo bíblico. Por meio de suas pesquisas, Albright chegou à conclusão de que o Pentateuco é de autoria mosaica, embora reconhecendo a presença de adições posteriores; reconheceu a historicidade dos patriarcas e apresentou evidências em favor do Novo Testamento. Sua colaboração à Apologética Cristã foi extraordinária – cf. GEISLER, Norman L. Enciclopédia de Apologética, ed. Vida.
[7] Citado em CHAMPLIN, Russell N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. vol. 2, ed. Candeia, 1991, p. 10.

Um, Dois ou Três Isaías?

     Prezado leitor ou leitora, abaixo, parte do texto que comporá nosso novo livro - Profetas Maiores -, lançado pelo SENET - Seminário Nacional de Ensino Teológico - onde abordo a questão da autoria do livro de Isaías.

O LIVRO DE ISAÍAS

“Isaías é chamado o profeta messiânico porque estava completamente imbuído da ideia de que seu povo seria uma nação mediante a qual, em algum dia futuro, viria da parte de Deus uma bênção portentosa e maravilhosa para todas as nações: o Messias que Deus enviaria e que traria paz, justiça e cura ao mundo inteiro. Ele focalizava continuamente sua atenção no dia em que seria realizada essa obra grande e maravilhosa”.

H. H. Halley, famoso comentarista bíblico.

INTRODUÇAO

            O livro de Isaías possui os escritos que estão entre os mais profundos de toda a literatura bíblica. Numa visão panorâmica do livro, percebemos também a amplitude de temas que compõem o livro. O livro pode ser estudado reconhecendo-se nele três seções[1]: a primeira, englobando os caps. 1 a 39, a segunda, 40 a 55 e a terceira, 56 a 66. A primeira seção tem um caráter de correção, indicação do pecado do povo e dos líderes da nação Israelita. Grande parte da mensagem de Isaías é endereçada a líderes políticos e militares que firmavam alianças com nações estrangeiras e não confiavam no Senhor. Na segunda seção, temos um vibrante discurso de consolo que é direcionado, profeticamente, aos israelitas exilados nas distantes terras da Babilônia. Esta seção já inicia com palavras de grande conforto: Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém...” (Is 40.1,2a). A terceira seção, que compreende os caps. 56 a 66 avança no tempo, com mensagens aos judeus repatriados da Babilônia. A descrição das condições históricas contida nesta última seção indica uma época por vir, posterior às que fazem referência às outras duas seções anteriores do livro.
 

O profeta

            Isaías, o filho de Amoz, é conhecido entre os estudiosos como o “príncipe dos profetas do Antigo Testamento”. É também por excelência o “profeta messiânico”, devido as várias referências que faz ao Messias, Jesus. Seu nome dá título ao livro por ele escrito, como acontece com todos os demais livros proféticos no AT. O significado é “Iavé é Salvação” ou “O Senhor é Salvação”. Seu ministério foi extenso – profetizou por mais de 60 anos, desde antes da morte do rei Uzias, que era seu tio, até depois da morte de Senaqueribe, rei Assírio, i.e., de 740 a.C. até 681 a.C. (cf. 1.1; 6.1; 37.38).
            O ministério do profeta Isaías foi centrado em Jerusalém e abrangeu os reinados de quatro reis: Uzias, Jotão, Acaz, Ezequias e Manassés (1.1). A tradição judaica (livro apócrifo de Ascensão de Isaías) afirma que Isaías morreu cerrado ao meio por ordens do filho do rei Ezequias, o ímpio rei Manassés. Possivelmente, foi à este fato que o escritor da epístola aos Hebreus tenha se referido em Hebreus 11.37. Isaías foi casado com uma profetisa e com ela teve dois filhos, cujos nomes eram mensagens simbólicas à nação de Judá: Sear-Jasube (7.3), que significa “Um-Resto-Volverá” e Maer-Salal-Has-Baz (8.3), “Rápido-Despojo-Presa-Segura”.

A Mensagem de Isaías

            Certamente a maior parte do livro de Isaías (caps. 1 a 39) foi escrita durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias e o restante do livro, caps. 40 a 66, durante o reinado do ímpio e perverso rei Manassés. Talvez os sofrimentos que tenha enfrentado por causa da perseguição deste malvado rei possa ter contribuído para os seus escritos a respeito do Servo Sofredor que viria no futuro (52.13-15; 53).
            O livro de Isaías em sua mensagem aborda temas sociais, religiosos e políticos. O profeta exorta o povo por causa de sua infidelidade a Deus, requer justiça dos líderes de Judá e procura mostrar que a salvação só pode vir do Senhor e não de acordos e alianças com outros países e nações. O livro de Isaías apresenta Iavé como “O Libertador de Israel” ou “O Redentor de Israel” (45.15; 49.26; 62.11).

Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há salvador”.
Isaías 43.11

O Livro de Isaías, Uma Mini-Bíblia Dentro da Bíblia

            O livro do profeta messiânico tem sido chamado de “A Bíblia dentro da Bíblia” ou uma “mini-Bíblia” por causa da semelhança da sua estrutura com a estrutura da Bíblia. Curiosamente o livro de Isaías está naturalmente dividido em duas grandes seções, assim como a Bíblia também é dividida em duas grandes seções, o AT e o NT. A primeira seção de Isaías compreende justamente 39 capítulos, assim como o AT tem justamente 39 livros. A segunda seção de Isaías tem 27 capítulos (40 a 66) assim como o NT tem 27 livros. A primeira seção do livro de Isaías contém uma mensagem com ênfase no julgamento divino sobre a nação pecadora, na Lei e faz referências ao Messias prometido. A segunda seção realça a graça, a redenção prometida, oferecida e realizada pelo Senhor, O Redentor de Israel e ao Messias, mas agora como estando presente. A primeira seção anuncia o Messias. A segunda apresenta o Messias manifesto!

Um, Dois ou Três Isaías?

            Partindo do ponto de vista cristão e judaico da autoria do livro de Isaías, a conclusão é simples e direta: sua autoria é única: foi Isaías, o profeta, que viveu no oitavo século antes de Cristo, o autor desse livro, capítulo por capítulo. Essa posição conservadora a respeito da autoria do livro de Isaías, no entanto, é questionada pela erudição moderna.
            Existe uma hipótese da crítica bíblica concernente ao livro de Isaías que o classifica em “Proto-Isaías” e “Deutero-Isaías”. “Proto” indicando uma autoria para os capítulos 1 a 39, que seria a seção que de fato foi de autoria de Isaías, e “Deutero” (gr. “segundo”) indicando uma segunda autoria para o livro, que abrangeria os capítulos 40 a 66. Esse “Deutero-Isaías” teria sido escrito em data posterior ao “Proto-Isaías”, o que significa dizer que algumas profecias com caráter preditivo do livro na verdade, não passaram de “fatos históricos narrados como se fossem ainda acontecer”. É que segundo alguns estudiosos que defendem datas posteriores para alguns livros proféticos (como Daniel), os autores bíblicos tinham o hábito de escrever fatos históricos já ocorridos como se ainda fossem ocorrer. Pode até ser que isso tenha sido prática corrente na Antiguidade, mas resta-nos perguntar se isso de fato se aplica aos livros proféticos do AT.
            Mas a erudição moderna não defende apenas a posição de dois “Isaías”, mas chega a propor um terceiro Isaías. David F. Payne chega a afirmar que

                        “a maioria dos estudiosos defenderia um quadro mais ou menos assim: os oráculos do  próprio Isaías estão contidos nos caps. 1-39; os caps. 40-55 são em grande parte obra de um profeta exílico do século VI; os caps. 56-66 contém os oráculos de ao menos mais um homem, que trabalhou na Palestina no final do século VI; e o livro todo também incorpora muitas notas editoriais, em geral breves, mas algumas bem extensas”[2].

            Em resumo, o livro de Isaías seria na verdade a reunião de textos de pelo menos três autores diferentes, percebendo-se isso por causa das diferenças de estilo literário e abordagens teológicas distintas contidas ao longo do livro de Isaías. Segundo os teólogos defensores dessa posição, o conteúdo do “Proto-Isaías” volta-se mais para julgamento, a passo que o “Deutero-Isaías” oferece conforto e sua mensagem concentrava-se mais no Servo sofredor do Senhor, além do fato de que os capítulos 40 a 55 teriam sido escritos no contexto do Cativeiro. Essas evidências seriam indicativos de autorias diferentes e de que partes do livro teriam sido escritas em data posterior àquela que é proposta pela posição tradicional, como já explicado anteriormente. Se essa posição estiver correta, então a profecia espantosa a respeito de Ciro, sendo chamado pelo nome pelo profeta Isaías 150 antes do seu nascimento na verdade não passaria de um mero relato de algo contemporâneo ao escritor dessa “profecia”. Em outras palavras, a profecia deixa de ser profecia no sentido preditivo, perde seu valor profético. Sob essa ótica, Isaías não teria predito nada, acontece apenas que o “segundo Isaías” ou “Deutero-Isaías” escreveu fatos que ele mesmo já conhecia, portanto, sem nenhum caráter profético de fato!

Refutações à Hipótese

            Pensamos que não é necessário separar a ideia de que houve um trabalho editorial no livro de Isaías de sua autoria única. De fato, o ministério dos profetas era mais oral que literário. O que diziam estava dito, mas quando escreviam suas mensagens, esse conteúdo necessitava sim de edição em função das “amplificações, explanações e elos de ligação entre os oráculos”[3]. Se aceita, por exemplo, a autoria única do Pentateuco (Moisés), mas reconhece-se como plausível a inserção de determinados textos adicionais, complementares, a fim de completar a narrativa, como por exemplo Deuteronômio 34 (afinal, como Moisés poderia ter escrito sobre sua morte?).  É claro que os termos em que os livros bíblicos foram escritos eram bem distintos dos que envolvem toda a produção literária no século 21, mas mesmo hoje, quando se lança uma edição post mortem do autor, de um dado livro, por exemplo, costuma-se fazer correções e inserções, sem, contudo, comprometer a autoria única do livro.
            Outro fator interessantíssimo a se considerar na questão da unidade autoral de Isaías é que um argumento que poderia ser contrário torna-se favorável: o anonimato do suposto “segundo Isaías”. Sobre isso, citamos mais uma vez Payne:

                        ... se realmente houve esse profeta extraordinário [que teria escrito os caps. 40-55 no sexto século a.C. – grifo meu), ministrando aos exilados na Babilônia, como é possível que até o seu nome e toda lembrança dele se tenham perdido?[4]

            Embora se reconheça que um profeta, anunciando a queda da Babilônia, precisaria sim, por questões de segurança, omitir-se, é ainda sim estranho quando pensamos, todavia, que houve profetas que lá estiveram e cujas identidades não foram ocultadas como Ezequiel e Daniel (este último chegou a interpretar os sonhos do rei que prenunciavam a substituição da Babilônia por outro reino – cf. Dn 2). De fato, alguns problemas permanecem em relação à autoria dupla ou tripla como eruditos modernos têm sugerido. Embora David F. Payne, aqui citado, se incline mais à hipótese de mais de um autor para Isaías, reconhece, todavia, que há algumas lacunas nessa hipótese.
            Quanto ao argumento da diferença de estilos literários para se defender a dupla e/ou tripla autoria de Isaías, é importante considerar que o estilo de um autor pode variar de acordo com sua idade, contexto social, destinatário, o assunto que está sendo abordado e considerando ainda o fato de que elementos estilísticos são sim propensos às mudanças. Portanto, eruditos da ala conservadora afirmam que esse é um argumento de pouca força para se defender um autoria dupla ou tripla.
            Mas é preciso considerar ainda que, a despeito das nuances que possa haver em Isaías, expressões, palavras e até frases são comuns em toda a extensão de Isaías. Comecemos citando a frase as vossas mãos estão cheias de sangue”, que ocorre em 1.15 e 59.3. Deus, em Isaías, é chamado de “O Santo de Israel” em 10.17; 41.14 e 60.9 (nas três seções). Além de frases, palavras e expressões, temas também são abordados não apenas numa parte, mas em outras partes de Isaías, como por exemplo, a idolatria dos cananeus, o que é interessante, já que este tema não despertaria tanto interesse para um profeta que vivesse no período do pós-exílio, já que após os judeus regressarem do Cativeiro Babilônico, a idolatria já não era mais um problema tão agudo como antes do Cativeiro. Isso é visto nos livros proféticos do pós-cativeiro que, em geral, não abordam temas relacionados à idolatria. Era de se esperar, portanto, se de fato um segundo ou terceiro Isaías estivesse escrevendo após o Cativeiro, não abordar esse assunto, mas o tema da idolatria dos cananeus é assunto nas três seções.
            Por fim, um ponto muito importante a se considerar na questão da autoria de Isaías e a hipótese de uma dupla ou tripla autoria, é que muitos eruditos da Alta Crítica notadamente apresentam uma rejeição ao sobrenaturalismo bíblico, o que não deixa de ser um fator norteador em sua pesquisa. Mas estudiosos sérios (mesmos os que se inclinam a negar o sobrenaturalismo bíblico) reconhecem que esse é um elemento muito presente nas narrativas bíblicas, sendo que os autores bíblicos tencionaram relatar fatos e eventos sobrenaturais. Muitos estudiosos, em geral de linha liberal, procuram explicar esses milagres e eventos sobrenaturais como sendo meramente mitos do povo judeu, e não ocorrências de fato sobrenaturais, no sentido exato da palavra, denotando assim uma interferência divina direta.
           
            Em favor ainda da unidade autoral do livro de Isaías citamos ainda três fatores ou evidências:

1.    O Novo Testamento não assume a posição de que tenha havido mais de um autor para o livro de Isaías, pois todas as partes ou seções do livro são citadas e atribuídas a Isaías, chamando-o pelo nome. Essa é uma evidência doutrinária, é claro e embora reconheçamos que a questão autoral não era o foco dos autores neotestamentários, todavia, o próprio Payne, que admite a possibilidade de vários Isaías, reconhece que “segundo o que sabemos, na época do Novo Testamento ninguém nunca questionou a unidade do livro de Isaías”[5]. Pensamos que seria um grande erro ignorar a questão da autoria do livro de Isaías face ao Novo Testamento, já que seus autores estavam mais próximos da autoria de Isaías do que nós, hoje. Um texto muito contundente em relação ao fato de que os escritos neotestamentários consideravam o livro de Isaías escrito por um personagem histórico apenas – o profeta Isaías, filho de Amoz – é João 12.38-41, onde João cita dois textos de Isaías (primeiro, 53.1 e depois, 6.9,10) e afirma que Isto disse Isaías porque viu a glória dele e falou a seu respeito” (Jo 12.41).  “Obviamente o mesmo Isaías que viu a glória de Cristo na visão do Templo de Isaías 6 foi aquele que também fez a declaração que está registrada em Isaías 53.1”[6].

2.    Em contraste com Ezequiel, que profetizou entre os cativos da Babilônia, o suposto “Deutero-Isaías” demonstra não conhecer ou estar familiarizado com o ambiente babilônico.

3.    Norman L. Geisler, uma das vozes conservadores de maior erudição na atualidade, menciona o fato de que “os Papiros do Mar Morto incluem uma cópia completa do livro de Isaías, e não há interrupção alguma entre os capítulos 39 e 40. Isso significa que a comunidade de Qumran aceitava a profecia de Isaías como sendo um único livro, no século II a.C. A versão grega da Bíblia hebraica, que também data do século II a.C., considera o livro de Isaías como um único livro, escrito por um único autor, o profeta Isaías”[7].

            Terminamos esta seção sobre a autoria de Isaías com o seguinte comentário contido no Dicionário Bíblico Wycliffe:

              Muitos que aceitam a opinião [de mais de um autor para o livro de Isaías – grifo meu) falham por não perceber que esse argumento prova muitas coisas. Se o texto em 41.2-4 deve conter as palavras de um contemporâneo de Ciro, então o cap. 53 deve conter as palavras de uma testemunha da crucificação. Isto é naturalmente impossível. Consequentemente, aqueles que negam que Isaías poderia ter pronunciado as profecias a respeito de Ciro devem defender que o mesmo argumento não se aplica ao cap. 53, ou devem negar que Isaías 53 seja uma profecia messiânica, apesar do claro testemunho do NT ao cumprir-se na morte do Senhor Jesus (Mc 15.28; Lc 22.37: At 8.35; 1 Pe 2.22).
Por trás desse argumento contra a unidade de Isaías, está naturalmente a doutrina moderna a respeito da profecia, segunda a qual o profeta era um homem de seu próprio tempo que falou somente ao povo de seu próprio tempo, e não às gerações futuras. Esta é uma meia-verdade muito perigosa. Os profetas testemunharam muito seriamente aos homens de sua própria época. Mas eles também falaram sobre coisas futuras, sobre “aquele dia”, “o dia do Senhor”. Sem usar muitas palavras, essa definição modernista da profecia minimiza ou elimina dela o elemento profético. Contudo, de acordo com os claros ensinos das Escrituras, o cumprimento das profecias representa a evidência mais clara de que a palavra do profeta é uma mensagem de Deus; e nenhuma passagem declara esta verdade de uma forma mais clara do que os escritos do próprio Isaías”[8].

RICARDO, Roney. Profetas Maiores: A Mensagem Profética da Bíblia Fala Hoje. 1ª ed., 2014. SENET.


[1] Isso não implica necessariamente numa autoria composta, como veremos adiante.
[2] PAYNE, David F. Comentário Bíblico NVI, organizado por F.F. Bruce. Ed. Vida, 1ª ed., 2008, p. 990.
[3] PAYNE, David F. Comentário Bíblico NVI, organizado por F.F. Bruce. Ed. Vida, 1ª ed., 2008, p. 990.
[4] Idem, p. 991.
[5] Idem, p. 991.
[6] Citado em Dicionário Bíblico Wycliffe, CPAD, 2ª ed., 2007, p. 986.
[7] GEISLER, Norman L. HOWE, Tomas. Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. Mundo Cristão, 1999, p. 275.
[8] Dicionário Bíblico Wycliffe, CPAD, 2ª ed., 2007, p. 986.