quinta-feira, 6 de março de 2014

O Livro de Daniel

O LIVRO DE DANIEL

“O livro de Daniel é o desvendar de um mistério.
E, se por um lado desvenda o mistério, por outro, o
envolve em surpresa e admiração, deixando grande parte
do mistério da revelação em aberto”.

Roy E. Swim

INTRODUÇAO

            O livro de Daniel é adequadamente considerado o “Apocalipse do Antigo Testamento”, uma vez que ele foi escrito dentro do gênero apocalíptico[1] e é singular nesse sentido, em toda a extensão do Antigo Testamento. No cânon hebraico, ele está na terceira seção, chamada de Ketubim, ou “Escritos”, na divisão chamada de “Livros Históricos”, junto com mais dois livros[2]: Esdras-Neemias e Crônicas (em nossas bíblias esses livros aparecem separadamente). Embora esteja nessa colocação no cânon hebraico (e não entre os Profetas), é praticamente impossível dissociar do livro de Daniel o seu teor profético, separando-os dos outros. Certamente por isso mesmo, a LXX o coloca logo após Ezequiel. O profeta Ezequiel reconheceu Daniel como um homem de integridade ímpar, cujo caráter e sabedoria notáveis fizeram dele uma espécie de lenda entre o povo judeu (Ez 14.14, 20; 28.3). Embora Daniel não tivesse o “ofício de profeta”, à semelhança de Jeremias e Ezequiel, por exemplo, que foram chamados por Deus para esse fim, é inegável que ele recebeu “o dom”. Observemos que Jesus mesmo se refere à ele como “o profeta Daniel” (Mt 24.15).  

O Profeta

            Daniel é exemplo de fidelidade a Deus em meio a circunstâncias as mais adversas possíveis. Ele estava à 800 quilômetros de sua terra natal, de sua própria cultura, de seu próprio povo. Agora, introduzido numa cultura completamente pagã, a cultura babilônica, ele tem seu nome mudado na corte de Nabucodonosor para Beltessazar (1.7), uma homenagem ao ídolo Bel, pois o nome significa “Bel proteja sua vida”. Seu nome original, Daniel, significa em hebraico “Deus é meu Juiz”. Ele passou por um período de três anos estudando no palácio e depois foi selecionado para o serviço real. Na corte, recebeu novo nome babilônico assim como seus três amigos, Misael, Azarias e Ananias. Isso tinha por finalidade evitar o transtorno de diversos nomes estrangeiros, além de unificar uma corte tão diversificada e também de demonstrar o domínio babilônico. Ali, demonstrou límpida pureza de caráter decidindo, “... firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia...” (1.8). Essa recusa de participar do banquete real não era simples dieta, mas uma firme resolução de não romper seus votos de consagração como hebreus ao Deus de Israel. Daniel nos ensina a preciosa lição de vida de um jovem que mesmo sob circunstâncias totalmente desfavoráveis, manteve-se fiel a Deus.     
            Daniel era membro da família real. Nasceu em Jerusalém, por volta do ano 623 a.C., durante a reforma de Josias e no começo do ministério de Jeremias. Foi levado cativo para a Babilônia na primeira leva de exilados, no ano 605 a.C. O ministério de Daniel foi muito extenso. Ele era adolescente por ocasião dos eventos registrados no capítulo um de seu livro e devia já estar na faixa dos oitenta anos quando recebeu de Deus as visões dos capítulos 9 a 12.

           
A Mensagem do Livro de Daniel

            O livro de Daniel é por excelência o “Apocalipse do Antigo Testamento”. Ele é assim chamado justamente por causa do seu alto teor profético. O livro todo pode ser considerado profético, embora encontremos nele descrições históricas, como os capítulos três e seis. O livro de Daniel juntamente com o de Apocalipse pertence a uma classe da literatura judaica chamada de “literatura apocalíptica”, que é encontrada no Antigo Testamento[3]. Além de Daniel, outros profetas também utilizaram este gênero literário, tais como Isaías (caps. 24-27), Joel (cap. 2), Ezequiel (caps. 1 e 40-48) e, sobretudo, Daniel (caps. 7-12) e Zacarias (caps. 1-6). A literatura apocalíptica tem sua origem num conjunto de textos do judaísmo tardio (sec. II a.C.) e do cristianismo primitivo. Entre esses textos destacam-se o 2 Enoque, o Apocalipse de Abraão, o 2 Baruque, o 4 Esdras e as Adições em Daniel. Mas estes livros não tinham o peso da inspiração divina, tal como encontramos em Daniel e Apocalipse.
            Um fato interessante no livro de Daniel é que a sua ênfase recai mais sobre os gentios do que sobre o povo judeu, sobre Israel, diferentemente dos outros profetas. Ele menciona Israel ou Judá apenas 12 vezes. Já Ezequiel o faz 201 vezes! O livro de Oséias, 59 vezes. Interessante ainda é notar que mais da metade do livro está escrito originalmente em aramaico, que na época da escrita (séc. VII a.C.) era a língua gentia mais falada no Oriente Médio. Esta parte do livro vai de 2.4 à 7.28 e registra dois sonhos ou visões nos capítulos dois e sete que tratam dos “tempos dos gentios”, de modo que o papel dos reinos gentílicos é o assunto ou mensagem principal do livro.

Autoria e Data de Daniel

            Como acontece com o livro de Isaías, grande debate tem ocorrido em torno da autoria deste livro. Já no terceiro século depois de Cristo, um filósofo chamado Porfírio atribuiu Daniel ao segundo século a.C. acreditando que a profecia preditiva era impossível e que as “visões” na verdade eram narrativas da história recente. Jerônimo, tradutor da Vulgata Latina, planejou um comentário ao livro de Daniel a fim de refutar Porfírio. Millard chega a dizer atitudes “semelhantes à de Porfírio foram expressas ocasionalmente durante os 1.500 anos seguintes, depois difundidas amplamente durante o século XIX, e são agora padrão entre a maioria dos eruditos do Antigo Testamento”[4]. Tem sido proposto pela Alta Crítica que Daniel foi escrito no período interbíblico, precisamente quando os judeus sofriam uma terrível opressão sob Antíoco IV Epifânio. Se essa posição estiver correta, então as profecias contidas em Daniel acabam por perder sua força, quando na verdade o profeta não estaria escrevendo eventos futuros, mas contemporâneos a ele próprio. Seria uma espécie de “mentira piedosa” do verdadeiro autor a fim de encorajar os leitores a enfrentarem o sofrimento a que estavam sendo submetidos. O verdadeiro autor do livro estaria utilizando “Daniel” como pseudônimo para intitular esse livro, prática comum na literatura apocalíptica. Ele estaria usando a figura de um sábio chamado Daniel, de antigas lendas judaicas, que suportara terríveis sofrimentos e que deveria ter seu exemplo seguido. Vários outros argumentos em favor de uma data recente para a autoria de Daniel são apresentadas; vejamos, no entanto, duas refutações evidenciais a essa hipótese:

1.    Críticos mencionam que o aramaico contido em Daniel não era mesopotâmico, mas palestino, como evidência para uma data recente para a composição do livro. Todavia, temos de considerar o fato de que o aramaico era a língua franca dos impérios babilônico e persa. Reconhece-se que o fato de que metade de Daniel tenha sido escrito em aramaico encerra em si um grande mistério no que tange à reconstrução de sua história. Mas é sabido também que o aramaico presente em Daniel é, de fato, o “aramaico oficial” usado nas correspondências reais da Assíria e Babilônia (cf. 2 Re 18.26 e Dn 2.4), e não o aramaico coloquial usado na Palestina do século II a.C. Alan R. Millard comenta que “... o aramaico [de Daniel – grifo meu] pertence mais provavelmente ao período entre os séculos VI e IV a.C., embora também pudesse ser posterior. As palavras tomadas por empréstimo do persa se encaixam bem no contexto do século VI, e até os três termos musicais gregos não forçam a data para um período posterior”[5].

2.    As três palavras gregas usadas por Daniel para instrumentos musicais (harpa, cítara e o saltério – 3.5,10) são apresentadas pelos críticos como evidência de que o livro teria sido escrito no período helenista. Mas W. F. Albright, lembrado como o “deão da Arqueologia Bíblica”[6] confirma que mesmo antes de Nabucodonosor, a língua e cultura grega já havia penetrado no Oriente Médio[7]. Ainda com relação ao uso de termos persas e gregos no livro, é importante pontuar que muito antes de Daniel já existia ativo comércio com os gregos, como depreendemos de Joel 3.6. Note-se que Joel é considerado um dos mais antigos profetas de Judá, da época de Joás (cerca de 830 a.C.) ou possivelmente do reinado de Uzias, em 750 a.C.

            Não poderíamos deixar de citar também a evidência doutrinária em favor de ser Daniel, o profeta exilado em Babilônia, o autor desse livro. Em Mateus 24.15 o Senhor Jesus refere-se à Daniel como um personagem histórico real e em outras passagens vemos que Ele usou algumas expressões contidas no livro de Daniel:

Ø  “Tamanha tribulação” (Mc 13.19) de Daniel 12.1.

Ø  “Abominável da desolação” (Mc 13.14) de Daniel 11.31.

Ø  O “pisotear do santuário” (Lc 21.24) de Daniel 8.13.


Você Sabia?
            O capítulo 5 de Daniel foi alvo de ataques de críticos bíblicos que alegavam haver um erro nesse texto, pelo fato de Daniel cita Belsazar como “rei” (5.1,2). Belsazar, segundo a crítica da Bíblia, não poderia ser o rei, já que o rei de fato era Nabonido, seu pai, que reinou 556 a 539 a.C. Portanto, a narrativa bíblica estaria incorrendo em erro. Mas a Palavra de Deus tem dado provas tão concretas de ser verdadeira em suas narrativas, e isso até nos detalhes. A arqueologia demonstrou que Nabonido de fato era quem reinava, mas Belsazar seu filho, era co-regente do reino com ele – daí ser chamado rei e daí oferecer a Daniel o “terceiro lugar” (note que ele não oferece o segundo lugar! Cf. 5.16). Um documento arqueológico chamado de as Crônicas de Nabonido informa que ele havia posto as tropas militares sob o comando de Belsazar e lhe confiou o reino antes de partir para o Ocidente, onde permaneceu por dez anos. Assim, não é estranho que Belsazar fosse chamado de rei.
            Alguns também supõem que haja uma contradição no texto bíblico de Daniel 5, pelo fato de Belsazar ser ali mencionado como “filho” de Nabucodonosor (quando este na verdade era seu avô). Mas isso é facilmente explicado pelo fato de que no hebraico bíblico  não havia uma palavra equivalente para “avô”, ou “bisavô” e portanto, “filho” ali é uma forma de dizer que ele era descendente direto de Nabucodonosor.

RICARDO, Roney. Profetas Maiores: A mensagem profética da Bíblia fala hoje. 1ª ed. 2014, SENET.  



[1] Para mais detalhes sobre a literatura apocalíptica, ver Apêndice ao final deste livro.
[2] Ver tabela 3.
[3] Para mais detalhes sobre a literatura apocalíptica, ver Apêndice 2 ao final deste livro.
[4] MILLARD, Alan R. Comentário Bíblico NVI, organizado por F.F. Bruce. Ed. Vida, 1ª ed., 2008, p. 1062.
[5] MILLARD, Alan R. Comentário Bíblico NVI, organizado por F.F. Bruce. Ed. Vida, 1ª ed., 2008, p. 1.176.
[6] Albright foi considerado um dos maiores arqueólogos do século passado. Ele mesmo migrou do liberalismo teológico para o conservadorismo bíblico. Por meio de suas pesquisas, Albright chegou à conclusão de que o Pentateuco é de autoria mosaica, embora reconhecendo a presença de adições posteriores; reconheceu a historicidade dos patriarcas e apresentou evidências em favor do Novo Testamento. Sua colaboração à Apologética Cristã foi extraordinária – cf. GEISLER, Norman L. Enciclopédia de Apologética, ed. Vida.
[7] Citado em CHAMPLIN, Russell N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. vol. 2, ed. Candeia, 1991, p. 10.

Um comentário:

  1. Passei e encontrei o seu blog, estive a ver e ler algumas coisas, não li muito, porque espero voltar mais algumas vezes,
    mas deu para ver a sua dedicação e sempre a prendemos ao ler blogs como o seu.
    Se me der a honra de visitar e ler algumas coisas no Peregrino e servo ficarei radiante,e se desejar fazer parte de meus amigos virtuais, esteja à vontade, irei retribuir.
    Mas por favor não se sinta coagido, siga apenas se desejar. deixo a benção de Deus.
    António.
    http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/

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