quinta-feira, 6 de março de 2014

Um, Dois ou Três Isaías?

     Prezado leitor ou leitora, abaixo, parte do texto que comporá nosso novo livro - Profetas Maiores -, lançado pelo SENET - Seminário Nacional de Ensino Teológico - onde abordo a questão da autoria do livro de Isaías.

O LIVRO DE ISAÍAS

“Isaías é chamado o profeta messiânico porque estava completamente imbuído da ideia de que seu povo seria uma nação mediante a qual, em algum dia futuro, viria da parte de Deus uma bênção portentosa e maravilhosa para todas as nações: o Messias que Deus enviaria e que traria paz, justiça e cura ao mundo inteiro. Ele focalizava continuamente sua atenção no dia em que seria realizada essa obra grande e maravilhosa”.

H. H. Halley, famoso comentarista bíblico.

INTRODUÇAO

            O livro de Isaías possui os escritos que estão entre os mais profundos de toda a literatura bíblica. Numa visão panorâmica do livro, percebemos também a amplitude de temas que compõem o livro. O livro pode ser estudado reconhecendo-se nele três seções[1]: a primeira, englobando os caps. 1 a 39, a segunda, 40 a 55 e a terceira, 56 a 66. A primeira seção tem um caráter de correção, indicação do pecado do povo e dos líderes da nação Israelita. Grande parte da mensagem de Isaías é endereçada a líderes políticos e militares que firmavam alianças com nações estrangeiras e não confiavam no Senhor. Na segunda seção, temos um vibrante discurso de consolo que é direcionado, profeticamente, aos israelitas exilados nas distantes terras da Babilônia. Esta seção já inicia com palavras de grande conforto: Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém...” (Is 40.1,2a). A terceira seção, que compreende os caps. 56 a 66 avança no tempo, com mensagens aos judeus repatriados da Babilônia. A descrição das condições históricas contida nesta última seção indica uma época por vir, posterior às que fazem referência às outras duas seções anteriores do livro.
 

O profeta

            Isaías, o filho de Amoz, é conhecido entre os estudiosos como o “príncipe dos profetas do Antigo Testamento”. É também por excelência o “profeta messiânico”, devido as várias referências que faz ao Messias, Jesus. Seu nome dá título ao livro por ele escrito, como acontece com todos os demais livros proféticos no AT. O significado é “Iavé é Salvação” ou “O Senhor é Salvação”. Seu ministério foi extenso – profetizou por mais de 60 anos, desde antes da morte do rei Uzias, que era seu tio, até depois da morte de Senaqueribe, rei Assírio, i.e., de 740 a.C. até 681 a.C. (cf. 1.1; 6.1; 37.38).
            O ministério do profeta Isaías foi centrado em Jerusalém e abrangeu os reinados de quatro reis: Uzias, Jotão, Acaz, Ezequias e Manassés (1.1). A tradição judaica (livro apócrifo de Ascensão de Isaías) afirma que Isaías morreu cerrado ao meio por ordens do filho do rei Ezequias, o ímpio rei Manassés. Possivelmente, foi à este fato que o escritor da epístola aos Hebreus tenha se referido em Hebreus 11.37. Isaías foi casado com uma profetisa e com ela teve dois filhos, cujos nomes eram mensagens simbólicas à nação de Judá: Sear-Jasube (7.3), que significa “Um-Resto-Volverá” e Maer-Salal-Has-Baz (8.3), “Rápido-Despojo-Presa-Segura”.

A Mensagem de Isaías

            Certamente a maior parte do livro de Isaías (caps. 1 a 39) foi escrita durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias e o restante do livro, caps. 40 a 66, durante o reinado do ímpio e perverso rei Manassés. Talvez os sofrimentos que tenha enfrentado por causa da perseguição deste malvado rei possa ter contribuído para os seus escritos a respeito do Servo Sofredor que viria no futuro (52.13-15; 53).
            O livro de Isaías em sua mensagem aborda temas sociais, religiosos e políticos. O profeta exorta o povo por causa de sua infidelidade a Deus, requer justiça dos líderes de Judá e procura mostrar que a salvação só pode vir do Senhor e não de acordos e alianças com outros países e nações. O livro de Isaías apresenta Iavé como “O Libertador de Israel” ou “O Redentor de Israel” (45.15; 49.26; 62.11).

Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há salvador”.
Isaías 43.11

O Livro de Isaías, Uma Mini-Bíblia Dentro da Bíblia

            O livro do profeta messiânico tem sido chamado de “A Bíblia dentro da Bíblia” ou uma “mini-Bíblia” por causa da semelhança da sua estrutura com a estrutura da Bíblia. Curiosamente o livro de Isaías está naturalmente dividido em duas grandes seções, assim como a Bíblia também é dividida em duas grandes seções, o AT e o NT. A primeira seção de Isaías compreende justamente 39 capítulos, assim como o AT tem justamente 39 livros. A segunda seção de Isaías tem 27 capítulos (40 a 66) assim como o NT tem 27 livros. A primeira seção do livro de Isaías contém uma mensagem com ênfase no julgamento divino sobre a nação pecadora, na Lei e faz referências ao Messias prometido. A segunda seção realça a graça, a redenção prometida, oferecida e realizada pelo Senhor, O Redentor de Israel e ao Messias, mas agora como estando presente. A primeira seção anuncia o Messias. A segunda apresenta o Messias manifesto!

Um, Dois ou Três Isaías?

            Partindo do ponto de vista cristão e judaico da autoria do livro de Isaías, a conclusão é simples e direta: sua autoria é única: foi Isaías, o profeta, que viveu no oitavo século antes de Cristo, o autor desse livro, capítulo por capítulo. Essa posição conservadora a respeito da autoria do livro de Isaías, no entanto, é questionada pela erudição moderna.
            Existe uma hipótese da crítica bíblica concernente ao livro de Isaías que o classifica em “Proto-Isaías” e “Deutero-Isaías”. “Proto” indicando uma autoria para os capítulos 1 a 39, que seria a seção que de fato foi de autoria de Isaías, e “Deutero” (gr. “segundo”) indicando uma segunda autoria para o livro, que abrangeria os capítulos 40 a 66. Esse “Deutero-Isaías” teria sido escrito em data posterior ao “Proto-Isaías”, o que significa dizer que algumas profecias com caráter preditivo do livro na verdade, não passaram de “fatos históricos narrados como se fossem ainda acontecer”. É que segundo alguns estudiosos que defendem datas posteriores para alguns livros proféticos (como Daniel), os autores bíblicos tinham o hábito de escrever fatos históricos já ocorridos como se ainda fossem ocorrer. Pode até ser que isso tenha sido prática corrente na Antiguidade, mas resta-nos perguntar se isso de fato se aplica aos livros proféticos do AT.
            Mas a erudição moderna não defende apenas a posição de dois “Isaías”, mas chega a propor um terceiro Isaías. David F. Payne chega a afirmar que

                        “a maioria dos estudiosos defenderia um quadro mais ou menos assim: os oráculos do  próprio Isaías estão contidos nos caps. 1-39; os caps. 40-55 são em grande parte obra de um profeta exílico do século VI; os caps. 56-66 contém os oráculos de ao menos mais um homem, que trabalhou na Palestina no final do século VI; e o livro todo também incorpora muitas notas editoriais, em geral breves, mas algumas bem extensas”[2].

            Em resumo, o livro de Isaías seria na verdade a reunião de textos de pelo menos três autores diferentes, percebendo-se isso por causa das diferenças de estilo literário e abordagens teológicas distintas contidas ao longo do livro de Isaías. Segundo os teólogos defensores dessa posição, o conteúdo do “Proto-Isaías” volta-se mais para julgamento, a passo que o “Deutero-Isaías” oferece conforto e sua mensagem concentrava-se mais no Servo sofredor do Senhor, além do fato de que os capítulos 40 a 55 teriam sido escritos no contexto do Cativeiro. Essas evidências seriam indicativos de autorias diferentes e de que partes do livro teriam sido escritas em data posterior àquela que é proposta pela posição tradicional, como já explicado anteriormente. Se essa posição estiver correta, então a profecia espantosa a respeito de Ciro, sendo chamado pelo nome pelo profeta Isaías 150 antes do seu nascimento na verdade não passaria de um mero relato de algo contemporâneo ao escritor dessa “profecia”. Em outras palavras, a profecia deixa de ser profecia no sentido preditivo, perde seu valor profético. Sob essa ótica, Isaías não teria predito nada, acontece apenas que o “segundo Isaías” ou “Deutero-Isaías” escreveu fatos que ele mesmo já conhecia, portanto, sem nenhum caráter profético de fato!

Refutações à Hipótese

            Pensamos que não é necessário separar a ideia de que houve um trabalho editorial no livro de Isaías de sua autoria única. De fato, o ministério dos profetas era mais oral que literário. O que diziam estava dito, mas quando escreviam suas mensagens, esse conteúdo necessitava sim de edição em função das “amplificações, explanações e elos de ligação entre os oráculos”[3]. Se aceita, por exemplo, a autoria única do Pentateuco (Moisés), mas reconhece-se como plausível a inserção de determinados textos adicionais, complementares, a fim de completar a narrativa, como por exemplo Deuteronômio 34 (afinal, como Moisés poderia ter escrito sobre sua morte?).  É claro que os termos em que os livros bíblicos foram escritos eram bem distintos dos que envolvem toda a produção literária no século 21, mas mesmo hoje, quando se lança uma edição post mortem do autor, de um dado livro, por exemplo, costuma-se fazer correções e inserções, sem, contudo, comprometer a autoria única do livro.
            Outro fator interessantíssimo a se considerar na questão da unidade autoral de Isaías é que um argumento que poderia ser contrário torna-se favorável: o anonimato do suposto “segundo Isaías”. Sobre isso, citamos mais uma vez Payne:

                        ... se realmente houve esse profeta extraordinário [que teria escrito os caps. 40-55 no sexto século a.C. – grifo meu), ministrando aos exilados na Babilônia, como é possível que até o seu nome e toda lembrança dele se tenham perdido?[4]

            Embora se reconheça que um profeta, anunciando a queda da Babilônia, precisaria sim, por questões de segurança, omitir-se, é ainda sim estranho quando pensamos, todavia, que houve profetas que lá estiveram e cujas identidades não foram ocultadas como Ezequiel e Daniel (este último chegou a interpretar os sonhos do rei que prenunciavam a substituição da Babilônia por outro reino – cf. Dn 2). De fato, alguns problemas permanecem em relação à autoria dupla ou tripla como eruditos modernos têm sugerido. Embora David F. Payne, aqui citado, se incline mais à hipótese de mais de um autor para Isaías, reconhece, todavia, que há algumas lacunas nessa hipótese.
            Quanto ao argumento da diferença de estilos literários para se defender a dupla e/ou tripla autoria de Isaías, é importante considerar que o estilo de um autor pode variar de acordo com sua idade, contexto social, destinatário, o assunto que está sendo abordado e considerando ainda o fato de que elementos estilísticos são sim propensos às mudanças. Portanto, eruditos da ala conservadora afirmam que esse é um argumento de pouca força para se defender um autoria dupla ou tripla.
            Mas é preciso considerar ainda que, a despeito das nuances que possa haver em Isaías, expressões, palavras e até frases são comuns em toda a extensão de Isaías. Comecemos citando a frase as vossas mãos estão cheias de sangue”, que ocorre em 1.15 e 59.3. Deus, em Isaías, é chamado de “O Santo de Israel” em 10.17; 41.14 e 60.9 (nas três seções). Além de frases, palavras e expressões, temas também são abordados não apenas numa parte, mas em outras partes de Isaías, como por exemplo, a idolatria dos cananeus, o que é interessante, já que este tema não despertaria tanto interesse para um profeta que vivesse no período do pós-exílio, já que após os judeus regressarem do Cativeiro Babilônico, a idolatria já não era mais um problema tão agudo como antes do Cativeiro. Isso é visto nos livros proféticos do pós-cativeiro que, em geral, não abordam temas relacionados à idolatria. Era de se esperar, portanto, se de fato um segundo ou terceiro Isaías estivesse escrevendo após o Cativeiro, não abordar esse assunto, mas o tema da idolatria dos cananeus é assunto nas três seções.
            Por fim, um ponto muito importante a se considerar na questão da autoria de Isaías e a hipótese de uma dupla ou tripla autoria, é que muitos eruditos da Alta Crítica notadamente apresentam uma rejeição ao sobrenaturalismo bíblico, o que não deixa de ser um fator norteador em sua pesquisa. Mas estudiosos sérios (mesmos os que se inclinam a negar o sobrenaturalismo bíblico) reconhecem que esse é um elemento muito presente nas narrativas bíblicas, sendo que os autores bíblicos tencionaram relatar fatos e eventos sobrenaturais. Muitos estudiosos, em geral de linha liberal, procuram explicar esses milagres e eventos sobrenaturais como sendo meramente mitos do povo judeu, e não ocorrências de fato sobrenaturais, no sentido exato da palavra, denotando assim uma interferência divina direta.
           
            Em favor ainda da unidade autoral do livro de Isaías citamos ainda três fatores ou evidências:

1.    O Novo Testamento não assume a posição de que tenha havido mais de um autor para o livro de Isaías, pois todas as partes ou seções do livro são citadas e atribuídas a Isaías, chamando-o pelo nome. Essa é uma evidência doutrinária, é claro e embora reconheçamos que a questão autoral não era o foco dos autores neotestamentários, todavia, o próprio Payne, que admite a possibilidade de vários Isaías, reconhece que “segundo o que sabemos, na época do Novo Testamento ninguém nunca questionou a unidade do livro de Isaías”[5]. Pensamos que seria um grande erro ignorar a questão da autoria do livro de Isaías face ao Novo Testamento, já que seus autores estavam mais próximos da autoria de Isaías do que nós, hoje. Um texto muito contundente em relação ao fato de que os escritos neotestamentários consideravam o livro de Isaías escrito por um personagem histórico apenas – o profeta Isaías, filho de Amoz – é João 12.38-41, onde João cita dois textos de Isaías (primeiro, 53.1 e depois, 6.9,10) e afirma que Isto disse Isaías porque viu a glória dele e falou a seu respeito” (Jo 12.41).  “Obviamente o mesmo Isaías que viu a glória de Cristo na visão do Templo de Isaías 6 foi aquele que também fez a declaração que está registrada em Isaías 53.1”[6].

2.    Em contraste com Ezequiel, que profetizou entre os cativos da Babilônia, o suposto “Deutero-Isaías” demonstra não conhecer ou estar familiarizado com o ambiente babilônico.

3.    Norman L. Geisler, uma das vozes conservadores de maior erudição na atualidade, menciona o fato de que “os Papiros do Mar Morto incluem uma cópia completa do livro de Isaías, e não há interrupção alguma entre os capítulos 39 e 40. Isso significa que a comunidade de Qumran aceitava a profecia de Isaías como sendo um único livro, no século II a.C. A versão grega da Bíblia hebraica, que também data do século II a.C., considera o livro de Isaías como um único livro, escrito por um único autor, o profeta Isaías”[7].

            Terminamos esta seção sobre a autoria de Isaías com o seguinte comentário contido no Dicionário Bíblico Wycliffe:

              Muitos que aceitam a opinião [de mais de um autor para o livro de Isaías – grifo meu) falham por não perceber que esse argumento prova muitas coisas. Se o texto em 41.2-4 deve conter as palavras de um contemporâneo de Ciro, então o cap. 53 deve conter as palavras de uma testemunha da crucificação. Isto é naturalmente impossível. Consequentemente, aqueles que negam que Isaías poderia ter pronunciado as profecias a respeito de Ciro devem defender que o mesmo argumento não se aplica ao cap. 53, ou devem negar que Isaías 53 seja uma profecia messiânica, apesar do claro testemunho do NT ao cumprir-se na morte do Senhor Jesus (Mc 15.28; Lc 22.37: At 8.35; 1 Pe 2.22).
Por trás desse argumento contra a unidade de Isaías, está naturalmente a doutrina moderna a respeito da profecia, segunda a qual o profeta era um homem de seu próprio tempo que falou somente ao povo de seu próprio tempo, e não às gerações futuras. Esta é uma meia-verdade muito perigosa. Os profetas testemunharam muito seriamente aos homens de sua própria época. Mas eles também falaram sobre coisas futuras, sobre “aquele dia”, “o dia do Senhor”. Sem usar muitas palavras, essa definição modernista da profecia minimiza ou elimina dela o elemento profético. Contudo, de acordo com os claros ensinos das Escrituras, o cumprimento das profecias representa a evidência mais clara de que a palavra do profeta é uma mensagem de Deus; e nenhuma passagem declara esta verdade de uma forma mais clara do que os escritos do próprio Isaías”[8].

RICARDO, Roney. Profetas Maiores: A Mensagem Profética da Bíblia Fala Hoje. 1ª ed., 2014. SENET.


[1] Isso não implica necessariamente numa autoria composta, como veremos adiante.
[2] PAYNE, David F. Comentário Bíblico NVI, organizado por F.F. Bruce. Ed. Vida, 1ª ed., 2008, p. 990.
[3] PAYNE, David F. Comentário Bíblico NVI, organizado por F.F. Bruce. Ed. Vida, 1ª ed., 2008, p. 990.
[4] Idem, p. 991.
[5] Idem, p. 991.
[6] Citado em Dicionário Bíblico Wycliffe, CPAD, 2ª ed., 2007, p. 986.
[7] GEISLER, Norman L. HOWE, Tomas. Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. Mundo Cristão, 1999, p. 275.
[8] Dicionário Bíblico Wycliffe, CPAD, 2ª ed., 2007, p. 986.


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