sábado, 2 de janeiro de 2016

Momento saudosista

Reconheço que sou um pouco (só um pouquinho…) saudosista.Definitivamente, não gosto de ficar preso ao passado. Passado é passado, e precisamos avançar. O ser humano aprende com o passado, projeta o futuro, mas vive no presente. Há quem diga que essa história de “aprender com o passado” não funciona porque nós continuamos cometendo os mesmos erros. Concordo em partes, mas admito que mudamos muito de nossas atitudes e repensamos muitas de nossas decisões com base no que vivemos e vimos no passado. Recentemente, amarguei, junto com um irmão e um amigo, um grande fracasso financeiro. Tentamos abrir um negócio que, infelizmente, não deu certo. Conversando sobre o assunto com alguém ouvi que numa próxima tentativa, sem dúvida eu não cometeria os mesmos erros que cometi dessa vez. E é verdade. De certa forma, já estou aprendendo com o que passou. Assim, concluo que sentir saudade é algo bom. A saudade nos faz lembrar de pessoas queridas, nos faz recordar, e “recordar é viver”. Nos faz reconhecer a falta, e reconhecer a falta nos leva muitas vezes a valorizar. Assim, eu gosto da saudade. Mas penso que a função mais importante da saudade é nos fazer olhar para o agora e para o futuro. Por exemplo: quem de nós ao lembrar de momentos do passado não pensa em como algumas coisas agora, poderiam ser melhores? Creio que a maioria de nós faz isso. E, como eu e meus leitores certamente temos muita coisa em comum, trago aqui, nesse texto saudosista, algumas saudades que sinto, saudades essas que me fazem repensar o agora, em que direção estamos indo e como podemos trabalhar para melhorar.
Sinto saudades do tempo em que nossas salas eram projetadas para que nos sentássemos de frente um para outro. Hoje, a televisão e/ou o computador tomaram esse lugar de atenção. Tornaram-se o centro das nossas atenções. Na verdade, já nem conversamos mais quando estamos à sala. Apenas assistimos, ou teclamos. Estamos on line, mas distantes; conectados, mas insensíveis;  curtimos o tempo todo, mas não ouvimos mais ninguém; postamos muita coisa, mas pouco construímos, e acessamos bastante, mas pouco ajudamos. Infelizmente, as relações sociais estão desmoronando, e amizades verdadeiras, são raras.
Sinto saudades do tempo em que pregávamos e ensinávamos realmente por amor, com simplicidade. Era aquela velha história, naquele velho linguajar igrejeiro: “vamos ganhar almas para Jesus”. O que me toca é o que subjazia nessa fala tão comum, naquele tempo. Havia um desejo sincero de comunicar o evangelho. De levar outros a Jesus. William Barclay conta que em “fins do século XIX, Huxley, o grande agnóstico, formava parte de um grupo que estava passando uns dias em uma casa de campo. Chegou no domingo, e a maioria dos membros do grupo se preparou para ir à igreja; mas, como é natural, Huxley não se propunha ir. Aproximou-se de um homem que era conhecido por sua fé cristã simples e radiante. Disse-lhe: “Suponhamos que hoje você não vá à igreja, que fique em casa e me diga como toda a simplicidade o que a fé cristã significa para você e por que é cristão”. “Mas”, disse o homem, “você poderia demolir meus argumentos em um instante. Não sou o suficientemente inteligente para discutir com você”. Huxley respondeu com amabilidade: “Não quero discutir com você; só quero que me diga o que este Cristo significa para você”. O homem ficou na casa e falou com o Huxley com toda simplicidade a respeito de sua fé. Quando terminou os olhos do grande agnóstico estavam cheios de lágrimas: “Daria minha mão direita”, disse, “para poder acreditar nisso”.
Em muitos momentos somos imbatíveis num bom debate, “defendendo a fé cristã” (será mesmo?), mas pouco atraentes enquanto cristãos.  Posso dizer que eu vivi num tempo em que as pessoas serviam a Deus com simplicidade, numa fé simples. Nem sempre os argumentos funcionarão, mas uma vida santificada terá um efeito muito maior sobre outra vida, ou outras vidas!
Sinto falta de um tempo em que não tínhamos nada, mas tínhamos tudo! Embora proceda de uma família tradicional e de posses, tive pouco ou quase nenhum contato com meus parentes biológicos, porque fui criado e educado por outra família. Sou filho adotivo. Meus pais adotivos eram pessoas simples e de poucas posses. Meu primeiro computador só fui adquirir na casa dos vinte anos. E carro, eu ainda não tenho, porque também sou uma pessoa de poucas posses (é aquela história de manter a tradição da família… rsrs). Nossa igreja também era muito simples e durante vários anos funcionou na garagem da casa que, paradoxalmente, não abrigava um carro, porque não tínhamos. Curiosamente, era um tempo bom! De fato, não tínhamos posses, não tínhamos nada. Nossa liturgia de culto era simples. Todavia, tínhamos alegria de estar juntos, de cultuar a Deus juntos e era festa. Aprendo com aquele tempo que o alerta de Jesus é verdadeiro: “Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15). Quando falo “daquele tempo”, não estou idealizando demais. Havia problemas, e dos sérios, mas havia qualidades que hoje, parecem se perder.
Sinto falta de um tempo em que culto era culto! Sim, e culto verdadeiro a Deus não necessita de “grande pregador”, “grande cantora”, “mãos cirúrgicas”, “homem do paletó ungido”, “apóstolo”… não, nada disso! Só precisávamos de crentes, sinceros e iguais em Cristo, que se dirigiam ao templo “apenas” e unicamente para adorar a Deus, para render-lhe graças, para orar, para “estreitar a comunhão com Deus”. Estamos indo aos “cultos” hoje porque fulano estará pregando e fulana estará cantando. Nosso interesse repousa exclusivamente no milagre, na bênção, e não nAquele que realiza o milagre e que concede a bênção. Isso não é culto. Culto a Deus é serviço prestado à Ele. “Mas precisamos exercer a fé”, poderá dizer alguém. Eu respondo: “Exerçamos nossa fé em prol da obra missionária, do avanço da Igreja, da salvação dos perdidos, de batismo com o Espírito Santo, entre outros”. Será que somos capazes de exercer nossa fé apenas por aquilo que nos diz respeito? Esquecemo-nos que Evangelho é altruísmo, abnegação, renúncia.
Enfim, sinto falta de muitas coisas. Mas que farei? Esse tempo não volta mais. É verdade! Todavia, posso avançar e lançar mão dos fundamentos, insistir neles, lutar por eles, orar por eles. Posso falar, viver, escrever sobre o que é que Deus espera de nós e procurar, eu mesmo, viver assim. Ao volver os meus olhos para trás, sou tomado pelas graciosas lembranças de coisas boas que vivi a respeito de Deus, da Igreja, das pessoas, de situações. Todavia, como bem afirma o Pastor Geremias do Couto, o “passado é passado, mas sem ele não haveria presente nem futuro. Não o arruíne com um péssimo presente que trará sombras em seu futuro”.
Deus abençoe a todos!

Em Cristo,

Roney Ricardo

Como entender a realidade de injustiça social face à grande presença de evangélicos no Brasil?

Sem dúvida, uma disparidade! Mas é também pertinente perguntar: como estaria o país sem a presença dos cristãos? É claro que tal pergunta não nos exime de fazer outras importantes considerações em torno dessa problemática. Sem dúvida, a realidade escravizadora em que se acha o homem, à parte do projeto de salvação de Deus para a humanidade, é fator preponderante para que se abra esse abismo de sofrimento social. Tendo em vista a condição desumanizante à que o pecado conduz, é consequência a realidade de sofrimento, privação, desamparo em que se acham muitas pessoas. O pecado alojado no coração humano acaba por estabelecer uma relação de opressão e desrespeito ao outro. A alteridade é substituída pelo consumismo. O pecado conduz ainda à uma condição, proposital, de rejeição do homem à imagem e semelhança de Deus na humanidade. Quando o homem deixa a posição de administrador dos bens dados por Deus (a vida, a natureza, os recursos, etc.), ele passa a estabelecer uma relação de exploração, extrativismo desenfreado, opressão e agressão. Assim, conclui Alfonso García: "o pecado pode, assim, ser entendido como deturpação do sentido do senhorio próprio da imagem de Deus".

Prof. Roney Ricardo

Reflexões: Assembleia de Deus e sua operadora telefônica

Estimado leitor ou estimada leitora, soube que a CGADB está criando uma operadora telefônica, a MAIS AD, e que inclusive já teria sido realizada uma cerimônia de lançamento do referido projeto, como consta no link abaixo, de um blog da própria CONFRADESP, convenção paulista. Me parece que é verídica a informação até pelo fato de blogs e outros espaços bem conhecidos na internet estarem divulgando a novidade. Me parece, inclusive, que um renomado ensinador bíblico da nossa denominação saiu em defesa da novidade.
Como assembleiano, venho aqui manifestar minha opinião sobre isso:
* Penso que a CGADB tem projetos mais importantes que uma operadora telefônica para levar avante e investir tantos recursos financeiros. Exemplo? Claro. Uma universidade assembleiana. Completamos nosso primeiro centenário e ainda não temos uma instituição de ensino de expressão à semelhança de outras como a Universidade Mackenzie, referência mundial, fundada por presbiterianos. Nossos jovens enfrentam o desafio do ateísmo e do agnosticismo tão presente hoje nos ambientes acadêmicos e de lá voltam tantas vezes desviados do evangelho de nosso Senhor e nós estamos preocupados com uma operadora telefônica…
* Penso que nossa denominação precisa desenvolver projetos sociais mais expressivos, como centros de recuperação para dependentes químicos, casas de acolhimento para ex-presidiários e tantos outros que poderia aqui citar. Já sei: nossa denominação já faz isso no Brasil inteiro. Mas pergunto: temos projetos assim à nível institucional, à exemplo de outras organizações, como o faz, por exemplo, a SBB (Sociedade Bíblica do Brasil)? Considere, por exemplo, o PROJETO LUZ NA AMAZÔNIA, criado desde 1962 e que contempla as comunidades ribeirinhas da Amazônia. Segundo informações da própria SBB, em seu site, seus projetos sociais contemplam milhões de pessoas! Nossos projetos sociais são sempre vôos solos, infelizmente.
* Passa-me a forte impressão de haver um interesse econômico por trás desse projeto. Isso nos leva a pensar até que ponto estamos usando nossa presença e influência, como povo evangélico, em solo brasileiro. Benefícios que atendem a interesses particulares ou a causa do Reino de Deus? O discurso de que está gerando empregos e que aplicativos usados para evangelização estarão no pacote da operadora me parecem aqueles típicos discursos religiosos que usam a religião para legitimar interesses econômicos.
Concluo convidando você, caro leitor e cara leitora, a orar comigo pela nossa querida denominação, os rumos que está tomando e mais ainda, pela Igreja de Cristo presente no Brasil, que vem convivendo com tantos desequilíbrios. Temos diante de nós o desafio de uma liderança centralizadora, um povo que sofre, vidas que precisam ser alcançadas pela evangelização, missionários no campo passando dificuldades, entre outros. Creio  piamente que nossos recursos deveriam ser canalizados para tais fins, e não para uma operadora telefônica, ou a construção de uma nova catedral, entre outras coisas.
Deus nos ajude!

Prof. Roney Ricardo
Site Teologia & Discernimento




REFERÊNCIA

Reflexões: a literatura bíblica que trata do fim dos tempos e sua implicação em nossa existência atual

Estou plenamente convencido que pensar a Escatologia (doutrina do futuro) de maneira apenas e exclusivamente futurista, encarando-a como que uma "cronologia de eventos por acontecer", definitivamente não é a aproximação mais acertada em relação à ela. Isto pelo simples fato de que os "tratados escatológicos" presentes na Bíblia em geral são respostas dadas a problemas e dúvidas que envolviam a realidade atual dos seus escritores e de seus leitores imediatos. Isso vale tanto para a Escatologia geral quanto para a Escatologia individual. O "todos" e o "eu" estão aqui contemplados! Interessante considerar que assim como quando a Bíblia aborda o passado não pelo passado simplesmente, também o faz com relação ao futuro. A abordagem Escriturística do futuro tem como meta nos trazer orientações quanto ao agora, ao presente, tendo em vista a esperança da vinda do Senhor Jesus. Eu amo essa vinda, que é futura, embora iminente (2 Tm 4.8), mas procuro observar a orientação epistolar que diz quanto ao presente: "E procureis viver quietos, e tratar dos vossos próprios negócios, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado" (1 Ts 4.11). A Escatologia (bíblica, é claro!) encerra em si mesma um alerta quanto ao futuro que traz implicações práticas para o presente. Deus deve ser glorificado no aqui e no futuro. Convivemos hoje, no Brasil, com uma "escatologia" que não é escatologia: é presunção, é sensacionalismo, é terror incutido nas pessoas. Escatologia Bíblica revela sim o juízo de Deus, mas o faz não sem apresentar uma resposta de esperança, de intervenção divina na História humana com vistas a restaurá-la à ordem, paz e justiça almejados pelo Criador, bendito eternamente, Amém!
É até curioso considerar o fato de que a palavra "apocalipse" (oriunda do grego e significando "revelação, desvelamento") assumiu um sentido muito relacionado a catastrofismo, pavor, pânico, destruição total. As pessoas chegam a comentar sobre o fim da humanidade usando sempre essa palavra, "apocalipse". Mas o Apocalipse bíblico, rico em imagens e símbolos, culmina com a manifestação do Rei Jesus (Ap 19) e a implantação de um novo céu e uma nova terra (caps. 21 e 22). Deus será conhecido de todos e não haverá mais pranto! O que fora perdido pelo homem no Éden é agora resgatado e restaurado por Deus. Isso não me parece catastrófico!

Prof. Roney Ricardo
roneycozzer@hotmail.com

Reflexões: a doutrina do pecado original

A realidade do pecado original nos chama a atenção para a existência de uma "via de mão dupla" na qual todos trafegamos: nós pecamos e nós carecemos do dom do amor gratuito de Deus! O desejo pecaminoso continua sendo uma realidade e corremos o risco de fecharmos a nossa subjetividade, ou de nos fecharmos em nossa própria subjetividade, não fosse a graça de Deus. A doutrina do pecado original nos alerta para o fato de que seríamos escravos, uma vez que por nós mesmos não teríamos jamais a condição necessária para vencer essa condição isolante. A realidade do pecado original nos leva a perguntar o que seria de nós sem a expressão do amor de Deus comprovada por meio da encarnação do verbo de Deus: Jesus Cristo. Tal doutrina, a do pecado original, paradoxalmente não é pessimista, mas positiva, uma boa nova quando confrontada com a mensagem do Evangelho bíblico revela nossa grande incapacidade, mas submete essa incapacidade ao ato redentor de Deus. Nossa limitação torna assim evidente a graça de Deus, em face da sua atuação poderosa sobre nós. Assim, tal doutrina, quando confrontada com a boa nova redentora, nos enche de esperança, sem dúvida.

Prof. Roney Ricardo

Introdução ao Novo Testamento. O Problema Sinótico. Roney Ricardo

Baixe gratuitamente slides sobre Introdução ao Novo Testamento: considerações gerais; e o problema sinótico. Professor Roney Ricardo.


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