quinta-feira, 16 de novembro de 2017

PADRÃO PIETISTA?

Lembro-me de ter tentado dialogar com um irmão, tempos atrás, sobre a condição da Igreja na atualidade. Ele, várias vezes quando me escrevia, citava homens como Edwards, Owen e outros. Insistia que a Igreja devia seguir nas suas pisadas. Concordei no sentido de que eles continuam sim sendo inspirações para nós, hoje, como homens de Deus que foram e que muito contribuíram para a Soteriologia, Eclesiologia, para a pregação, para a ação social, dentre outras áreas. Mas discordo daqueles que insistem em que de alguma forma deveríamos transpor seu estilo para nossos dias. Penso que são épocas diferentes, substancialmente diferentes! Eles, lá atrás, naturalmente refletiram também as marcas de seu tempo, como nós fazemos hoje. Veja o que diz Robson Moura Marinho em seu excelente livro "A arte de pregar": "... o conteúdo da adoração e da mensagem é bíblico, e, portanto, não deve mudar. Mas será que se pode dizer o mesmo do formato? Será que um formato de pregação que foi consagrado como uma bênção poderosa na vida de uma geração deve por isso permanecer inalterado para todas as gerações posteriores?" (MARINHO, Robson Moura. A arte de pregar: como alcançar o ouvinte pós-moderno. 2ª ed. rev. ampl. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 41). Certamente, cada época pode presenciar formas contextualizadas de compartilhar a mensagem do evangelho, sem descaracterizar esta mesma mensagem. Adaptar é preciso, corromper jamais!

Em Cristo,
Roney Cozzer

terça-feira, 14 de novembro de 2017

CONVIVÊNCIA ECLESIAL E FORMAÇÃO TEOLÓGICA?

Trecho de um novo livro saindo...

Ainda perdura no seio evangélico, especialmente nas igrejas de matriz pentecostal, uma forte resistência ao estudo acadêmico teológico. Já se tornou até mesmo um chavão aquela frase: "Teologia esfria o crente". E fato é que é até compreensível, sob certa medida, essa reserva em relação ao estudo teológico, visto que muitos há que, infelizmente, após ingressarem em seminários e faculdades teológicas, acabam deixando suas atividades na igreja onde servem, quando não abandonam a própria igreja mesmo!
Ninguém pode negar que todos estamos sujeitos a passar por intensos conflitos internos durante os estudos teológicos, seja em seminários, seja em faculdades, e em qualquer nível. E isso acontece com muitos, em diferentes denominações evangélicas. O fervor espiritual, o zelo pela evangelização, a dedicação à um ministério específico no ambiente eclesial dão lugar à frieza, ao senso crítico exagerado, que vê problema em tudo e em todos (especialmente no pastor!) e até mesmo ao abandono da fé, nalguns casos. O que acontece com essas pessoas para uma mudança tão radical? Alguns responderão que se um cristão abandona a fé no seminário ou faculdade de teologia é porque nunca a tiveram. Nossa discordância desta conclusão é estrutural! A fé cristã é pensada; é racional. Ela é coerente com fatos e pensada em harmonia com os elementos da vida. Quando as bases intelectuais da fé são "abaladas", naturalmente essa mesma fé pode ser abandonada. Em que pese ainda o fato de que a própria Bíblia menciona a apostasia, e apostatar é abandonar a fé (Hb 6).
Vale a pena registrar aqui o depoimento do Pastor Augustus Nicodemus sobre sua própria experiência com esse quase abandono da fé.

Após minha conversão em 1977, depois de uma vida desregrada e dissoluta, dediquei-me à pregação do Evangelho e a plantar igrejas. Larguei meu curso de Desenho Industrial na Universidade Federal de Pernambuco e fui trabalhar como obreiro no litoral de Olinda, pregando a uma comunidade de pescadores, depois no interior de Pernambuco entre plantadores de cana e finalmente entre viciados em droga em Recife. Todos me aconselhavam a fazer o curso de seminário e a me tornar pastor. Eu resistia, pois tinha receio de que quatro anos em um seminário iriam esfriar o meu ânimo, meu zelo, minha paixão pelas almas perdidas. Eu conhecia vários seminaristas e não tinha a menor intenção de me tornar como eles. Finalmente cedi. Entrei no seminário aos 24 anos de idade, provavelmente como um dos mais relutantes candidatos ao ministério que passara por aquelas portas. Tive professores muito abençoados que me ensinaram teologia, Bíblia, história, aconselhamento. Eram todos, sem exceção, homens de Deus, comprometidos com a infalibilidade das Escrituras e com a teologia reformada. 
Tenho que confessar, porém, que nesse período, esfriei bastante. Perdi em parte aquele zelo evangelístico, a prática de dedicar várias horas diárias para ler a Bíblia e orar. O contato com a história da Igreja, a história das doutrinas, as controvérsias, afora a carga tremenda de leituras e trabalhos a serem feitos, tudo isso teve impacto na minha vida devocional. Pela graça de Deus, durante esse período me mantive ligado ao trabalho evangelístico, à pregação. Mantive-me em comunhão com outros colegas que também amavam o Senhor e juntos orávamos, discutíamos, compartilhávamos nossas angústias, alegrias, dificuldades e planos futuros. Saí do seminário arranhado.[1]


Diversos fatores devem ser analisados no que tange à esta questão. Um desses fatores é que o problema não reside, necessariamente, na Teologia em si, ou mesmo na criticidade gerada pelo conhecimento adquirido. Com efeito, após passar anos de nossa vida lendo, pesquisando e convivendo com pessoas de outros níveis intelectuais e vivências diferentes das nossas, já não conseguimos mais encarar as coisas da mesma forma. E isto faz parte do nosso processo de amadurecimento pessoal e teológico. Mas o que ocorre muitas vezes é a incapacidade dessas pessoas de conviverem com o outro. Fala-se tanto em alteridade na academia, mas na prática, muitos mostram-se infrutíferos neste quesito. É válido dizer ainda que, em grande medida, trata-se na verdade de um problema de caráter mesmo! A arrogância encontra seus "suportes" (para não dizer pretextos) e o conhecimento teológico adquirido pode ser um desses. O conhecimento teológico pode e deve ser posto a serviço da Igreja, do Reino de Deus. Minha criticidade pode ser usada não apenas para identificar problemas, mas propor saídas e revitalizar o antigo. Possuir conhecimento acadêmico e ser incapaz de conviver não é sinal de sabedoria; é sinal de intolerância e falta de conversão em muitos casos. Que o Senhor nos ajude! Naturalmente não estamos - em hipótese alguma - afirmando que este seja um quadro geral. Há estudantes sinceros que não conseguem conciliar de fato as críticas que ouvem de professores de Teologia com a realidade que encontram em suas próprias igrejas. E não ignoramos ainda o fato de que pertencer à uma igreja evangélica hoje, já não é mais uma tarefa tão fácil assim. Todavia, não é abandonando nossa congregação que os problemas serão resolvidos; é ficando e lutando pela vida da Igreja. É insistindo com pessoas. É avançando com amor a Deus e ao próximo.


[1] NICODEMUS, Augustus Lopes. Por que seminaristas costumam perder a fé durante os estudos teológicos? Blog O tempora, o mores. Disponível em: <tempora-mores.blogspot.com.br/2012/02/por-que-seminaristas-costumam-perder-fe.html> Acesso em 14 nov. 2017.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ORDENAÇÃO AO PASTORADO?

Recentemente ouvi um pastor amigo contar um caso interessante, de uma cantora evangélica que foi ordenada ao pastorado. A resposta que ela deu quando perguntada sobre sua consagração a pastora, considerei inusitada, mas sua fala reflete uma grande parcela das pessoas hoje que são levadas ao pastorado, ou melhor, à ordenação. Ela teria dito que o fato de agora ser pastora estava lhe permitindo ter acesso a lugares que antes ela não podia ter! Perceba como as pessoas hoje almejam uma ordenação ao pastorado não pelo senso de serviço ao Reino de Deus, com vistas a cuidar de pessoas de fato, mas por motivações que giram mais em torno de seus próprios interesses. Particularmente, considero uma verdadeira crise na Igreja Brasileira o fato de pregadores itinerantes e cantores que não pastoreiam, não tem igreja para pastorear e que não atuam nem como pastores auxiliares, serem ordenados ao pastorado mais por questões de status e "abertura" do que pelo sentido exato do que é ser pastor. Como diziam os pastores antigos, pastores de verdade, "pastor tem cheiro de ovelha", e tem cheiro de ovelha por conviver com elas, por se interessar por elas, por gastar e se deixar gastar por suas almas. Quando convidado à ordenação pastoral, eu rejeitei por entender que não era ainda o momento, que minhas prioridades naquela fase de minha vida não me permitiriam estar à frente de uma igreja e, acima de tudo, por eu não querer ser pastor só no título, mas na função!
Em Cristo,

terça-feira, 11 de abril de 2017

O QUE ESTES OLHARES ME DIZEM?

Da esq. para a dir.: eu e o Missionário, Pr. Adaías de Ávila, pioneiro dentre 
os missionários enviados ao campo pelo DEMADVARDO.

Da esq. para a dir.: Pb. Edson, Secretário do DEMADVARDO, Pr. Adaías e sua esposa, 
Missionária Maria das Graças de Oliveira de Ávila.

Ontem, dia 10 de abril de 2017, tive o privilégio de entrevistar o casal De Ávila, missionários enviados ao Chile e à Argentina pelo DEMADVARDO (Departamento de Missões das Assembleias de Deus do Vale do Rio Doce e Outros), isso lá pelos idos das décadas de 70 e 80. À época, o DEMADVARDO era chamado de "Caixa de Missão". O nosso Projeto Historiográfico, que visa registrar 50 anos de História (a completar-se em 2018) avança e os irmãos Adaías de Ávila e Maria das Graças Oliveira de Ávila foram os primeiros pioneiros dessa história que entrevistamos. Longe, mas muito longe de ser uma atividade enfadonha, temos sido surpreendidos por fortes emoções. 
Ao avançar nas perguntas, ouvindo-os, comecei a pensar em quão bela é a história do Movimento Pentecostal. Os pentecostais, assim como as igrejas históricas, também nos engajamos na Obra de Missões e fomos pioneiros em muitos lugares na plantação de igrejas e desenvolvimento de projetos sociais em nosso Brasil. Nós, pentecostais, também ouvimos o chamado e a ordem do Mestre quanto ao "Ide" e mais do que "cristianizar" cidades, fomos sim impelidos e movidos pelo amor ao outro. Ante a experiência de ouvir pioneiros da obra missionária, me pergunto: Como olhar estes olhos que, inelutavelmente, carregam o peso da experiência e a carga de uma vida dedicada aos outros e não reconhecer que temos uma história marcante? Como "ouvir a firmeza" presente na voz que relata fatos que envolveram aqueles que lá estiveram, que lá fizeram e que lá deixaram e não ser tocado por uma história que é viva e fala por si mesma? Do historiador pode ser esperada certa neutralidade no registro do fato histórico, visando imparcialidade e honestidade neste registro, mas como se sabe, o historiador também impinge sua própria leitura sobre os eventos. E eu aqui tento fazer isso, mas dividindo-me entre a constatação e a documentação dos fatos de maneira honesta, imparcial e essa interpretação pessoal. Ao inquirir o casal de missionários, ao ouvir "o grito do silêncio" gerado pela voz embargada, ao olhar aqueles olhos que pareciam rever no horizonte passado os fatos descritos e que brilhavam ante as preciosas lembranças que marcaram a si mesmos e a outros, como não reconhecer que Deus agiu no passado? E como não reconhecer que Ele continua agindo hoje? Nas palavras deste veterano missionário, Pastor Adaías de Ávila, "o que mantém o missionário é a chamada divina". Ainda em suas palavras, "o período turístico do missionário passa, mas o que permanece é a sua chamada divina". Numa época em que nosso querido Movimento Pentecostal sofre com tantos desmandos e atos egoístas, como foi bom ouvir pessoas que dedicaram suas vidas a outros e ao Outro. O que estes olhares me dizem? A vida tem sentido no serviço prestado a Deus e ao próximo! Ao ouvir estes missionários, desejei sentar-me com o niilista Friedrich Nietzsche e dizer para ele: "Você se enganou Nietzsche! A vida não é tão sem sentido assim como você propõe. Permita-me apresentar-lhe o casal De Ávila".

Roney Cozzer


sexta-feira, 24 de março de 2017

SOBRE OS FALTOSOS


Penso que a maneira como nós, cristãos, e a nossa liderança, tratam aqueles que pecaram em sua caminhada é, por vezes, até desumana. Fato é que descartamos pessoas como se descarta objetos. E isso na Igreja brasileira. Ouvimos que toda uma vida de serviço cristão é simplesmente anulada quando uma pessoa peca. Bem - eu admito! - tenho muita dificuldade com isso. Se essa anulação ocorre não seria justamente por causa da nossa dureza de coração em relação ao faltoso? Não deveria ele ser orientado e disciplinado com amor, a fim de ser restaurado, mediante arrependimento sincero? Parece que em nossa querida Igreja brasileira absorvemos essa tendência pós-moderna de coisificar pessoas e personificar coisas. Com isso, se estabelece o utilitarismo, utilitarismo que nos cega em relação ao nosso dever para com o próximo. Em nome de uma pureza e de uma ortodoxia, excluímos e não incluímos, execramos e não curamos, afastamos e não atraímos. Uma vez inutilizado pelo pecado, para que serve o faltoso senão para ser descartado? É claro, não devemos partir para generalizações, mas fato é que isso se repete de forma sistêmica. E certo é que Deus nos julgará por isso. Os evangélicos brasileiros, aparentemente, ainda não aprenderam, à luz do Evangelho de Cristo, a diminuir a tensão entre ajudar o que caiu e abonar seus erros. São duas instâncias diferentes que podem sim existir independentes uma da outra. Aliás, não foi justamente isso que Ele fez por nós, tornando-se homem, morrendo na cruz e ressuscitando para salvar faltosos?
Em Cristo,
Roney Cozzer

quarta-feira, 22 de março de 2017

MAIS UMA REFLEXÃO ECLESIOLÓGICA


Levados por essa tendência, os evangélicos brasileiros por vezes valorizam mais as estruturas e tecnologias à serviço da Igreja do que as próprias pessoas que constituem a Igreja e para a qual são destinadas essas estruturas e tecnologias. Há um interesse irracional pela presença de pessoas cuja única oferta que podem fazer à uma igreja local é a sua voz, ou a sua oratória, ou o seu conhecimento teológico. Criam-se assim estereótipos, que são colocados "nos altos" e ali são idolatrados pelos cristãos contemporâneos. Não se pergunta - certamente por que não há interesse - pelos ideais éticos dessas pessoas e como elas podem influenciar positivamente seus ouvintes. Bauman acertou em cheio: na pós-modernidade as pessoas reúnem-se em torno de ideais estéticos e não em torno de ideais éticos. Admira-se e paga-se pelo visitante que é famoso, mas paradoxalmente desconhecido - nada ou quase nada se sabe sobre sua história pessoal -, e nada ou quase nada se investe naqueles que são conhecidos, homens e mulheres cujas trajetórias estão entrelaçadas com a realidade dessa dada igreja local, numa mescla de suor, esforço, dedicação, sacrifícios e lágrimas despendidos pela sua dedicação à essa comunidade eclesial local. Essa incongruência chocante, tão repetida na Igreja brasileira em suas diversas denominações, é tão evidente e ao mesmo tempo tão ignorada. E isso, sem dúvida, pode ser atrelado à essa agressão tão recorrente que é feita à correta interpretação bíblica, nesse claro distanciamento hermenêutico presente na práxis eclesiológica brasileira.

Parte de um artigo científico intitulado DESAFIOS PARA A MISSÃO DA IGREJA NA PÓS-MODERNIDADE, submetido ao programa de mestrado em Teologia das Faculdades Batista do Paraná (FABAPAR). 

Roney Cozzer

sexta-feira, 17 de março de 2017

O INQUIETANTE E CONFORTÁVEL DUALISMO DA VIDA



Nosso tempo...

A pós-modernidade é uma era marcada pela rejeição do absoluto. Verdades absolutas e afirmações peremptórias causam ojeriza nas pessoas. Com efeito, o homem pós-moderno rejeita cânones, repudia marcos definitivos e estagnou-se na constante mutação do mundo líquido. A humanidade está mudando e isso todos já percebemos. A velocidade da mudança certamente é o que torna diferente essa mudança na História. O homem sempre mudou, mas não tão rápido como agora. É possível que já não nos debrucemos tanto sobre questões existenciais como foi feito no passado. Essa busca constante pelo sentido da vida parece já não fazer mais tanto sentido assim, afinal, nosso tempo é marcado pelo consumismo voraz e impiedoso. A despeito dessa mudança veloz e dessa possível indiferença à essas questões relacionadas à nossa existência, várias coisas permanecem, e uma delas é a dualidade da vida.

A quem pertence esse dualismo?

Esse dualismo é inerente à todos. Alguns, presumo eu, olham mais para ele, são mais tocados por ele e se interessam mais por ele do que outros que, embora inseridos também nesse dualismo, preferem ignorá-lo, simplesmente, se é que isso é possível. 

Uma pergunta

Mas, que dualismo é esse? Esta pergunta é fundamental nesta reflexão, pois nos permite olhar para os diversos aspectos que constituem esses dois lados da vida que coexistem de maneira maravilhosamente harmônica e conflituosa. Esse dualismo é permanente, inevitável, incisivo, flexível, rígido, reconfortante e absurdamente incômodo... Ele não é fácil de ser definido, afinal, a vida não é simples de ser definida. Mas estamos vivendo, certo? E isso é tão objetivo, tão simples, certo? Sim e não! Esse dualismo da vida, inerente à ela, simplesmente está para além da nossa administração, ainda que administremos nossa vida sob certa medida.

O que é este dualismo?

Este dualismo constitui-se de diversos fatos sobre nós e os outros, sobre nossas vidas e sobre a morte (nossa e de outros), sobre nossa existência e sobre o quanto ela nos é enigmática, sobre nossas convicções e incertezas.

Veja! Vivemos, mas somos mortais. E sabemos que vamos morrer, mas quem de nós nunca viveu como se nunca fosse morrer? Nas palavras do inesquecível Bauman em A sociedade individualizada, "o vôo da vida, de maneira inevitável, vai cair no solo" (2008: 7). E nós sabemos disso, como bem escreve o polonês, e não temos como não saber. De alguma forma, contudo, a morte nos move. O que faremos enquanto essa visita indesejável não chega?

Veja! Sorrimos, gostamos do sorriso (nos outros e em nós), e queremos sorrir mais, mas a tristeza nos faz melhor de alguma forma. A extroversão nos move, mas quem pode negar que a fleuma nos conduz à profundas reflexões e à produções indeléveis?

Às vezes sabemos exatamente o que queremos, mas há momentos em que simplesmente não sabemos querer... Até sabemos que precisamos querer o certo, mas a neblina permanece. E curiosamente, há momentos em que aquilo que queremos não deveria ser querido por nós... Ainda assim, o querer insiste em querer.

Veja! Somos escandalosamente gregários, seres e sujeitos cuja subjetividade é construída no e à partir do outro, mas somos dualisticamente solitários. Multidões nos fazem sentir sós, e por vezes nada é mais coletivo para nós do que a companhia de um único amigo. Que enigma somos nós! Que enigma sou eu! 

Veja! Escrevemos para sermos entendidos... Mas quem de nós nunca escreveu para se refugiar atrás das letras? E que belo refúgio são elas... Morrerei se não encontrar alguém que entenda meus textos... e viverei enquanto permanecer incompreensível e indecifrável em meio aos meus parágrafos. Eles me fazem respirar quando todos me sufocam. Eles me fazem falar quando minha voz incomoda. Eles me permitem expressar pensamentos profundos quando minha retórica falha. Eles me dão visibilidade que me esconde... Há! Que delícia esse dualismo da vida.

E ainda: veja o dualismo da nossa relação com Deus. Ele, com Seus eternos atributos, portentosos, indescritíveis, revelando sua transcendência, mas ao mesmo tempo, inacessivelmente acessível! Sua magnitude deu as mãos à finitude. A simplicidade com que se Ele nos revela chega a ser desconcertante. Nas palavras do grande pensador cristão, C. S. Lewis, "Deus não se faz de filósofo diante de uma lavadeira". Ele é simples... Mas quem de nós nunca reconheceu que há vezes em que Ele simplesmente desaparece? Com efeito, escreveu o profeta: "Verdadeiramente, tu és o Deus que te ocultas, o Deus de Israel, o Salvador" (Isaías 45.15 ARC). Assim, prosseguimos nesse dualismo inerente dessa relação com Ele: certos de que Ele é "quem a todos dá vida, respiração e tudo mais", e que "não está longe de cada um de nós" (Atos 17.25,27), todavia, reconhecendo que Ele continua sendo aquele que "habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver" (1 Timóteo 6.16).

Concluindo

Esse dualismo deveria agradar à pós-modernidade, já que ele se mostra dúbio por essência, e a pós-modernidade é por definição a era das incertezas. Mas essa dubiedade desse dualismo inerente à vida é tão fixo e rígido que certamente contraria os cânones pós-modernos. Um paradoxo, sem dúvida... ou, talvez, nem tanto... De fato, o relativismo tão apreciado pelo homem e pensamento pós-modernos não daria às mãos à algo tão perene como esse dualismo. Filósofos, Teólogos, Cientistas, Leigos, de antes e de agora, se debruçam sobre ele. E claro: o dualismo continua. E se você, estimado(a) leitor(a), esperava que eu pudesse apresentar alguma saída para ele, preciso decepcioná-lo. De alguma forma me delicio neste incômodo confortável produzido por essa dualidade vivencial...

Professor Roney Cozzer